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AmbienteEntrevistas

O Bosque tem uma Guardiã

A Guardiã do Bosque é uma pessoa. O Bosque é para Norte ou para Sul do Alentejo, não me “lembra” bem… Mas lembro-me das palavras que me cedeu, explicando-me formas de preservar e curar a floresta. Formas de amar o mundo. Apesar de a sua presença no mundo digital ser mais remota do que no mundo natural, aconselho o leitor a procurar mais sobre o trabalho d’a “Guardiã do Bosque”.

Entretanto, aqui vos deixo o relato do nosso encontro.

Às vezes, na busca por entender melhor estas terras e estas gentes é preciso expandir horizontes. Na minha senda por conseguir retratar e preservar a terra onde me aninhei, caminhei pela planície, entrei na floresta e segui.

Sem nunca olhar para trás, extasiado por toda a beleza do mundo natural que me engolia e acolhia, cheguei a uma clareira e nessa clareira estava sentada uma pessoa e, mais que uma pessoa, estava sentada uma vontade de criar, de curar, de recuperar e proteger. Sentei-me à sua frente e a Guardiã do Bosque – como lhe é chamado – falou para mim, respondendo às minhas perguntas.

créditos fotográficos: Alexandre Barata contacto: alexandregbarata@gmail.com

Os pássaros voavam alegremente, os insetos passeavam-se nos ramos de frondosas árvores e, na sombra fresca da clareira ela começou:

Guardiã: Nasci numa cidade grande, sentia-me doente e com problemas respiratórios que me estrangulavam, mas sempre que vinha para a floresta ficava melhor rodeada pela natureza. Foi assim que comecei a amar verdadeiramente a natureza. Sempre gostei muito de animais, dos insetos, das minhocas, das lagartixas, das plantas… Centopeias e aranhas nunca me meteram medo.

Logo aí soube que era uma criança diferente e que pertencia à floresta.

Os documentários da National Geographic inspiravam-me – “Quero ver os bichos!”, dizia.

AA: Mas, aqui perdida no Bosque, o que te fez aproximar-te assim tão efetivamente da natureza?

G: Quando amamos algo verdadeiramente, e o vemos ser destruído, é como se nos destruíssem também… Vivendo na cidade sempre senti que conseguia fazer pouco, estava a remar contra a maré das vontades… Embora a quisesse mais verde, entendi que o verdadeiro trabalho teria de ser feito junto da natureza. Aqui encontrei ferramentas e oportunidade para preservar a floresta e os bosques. Encontrei um refúgio e um sentido. Aqui, compreende-se o valor do ambiente, as pessoas falam a mesma língua que eu.

A Guardiã caminhava e entrámos na sua casa, na sua casa mágica, repleta de desenhos, fotografias, retratos da natureza, das suas cores e dos seus pormenores fantásticos.

créditos fotográficos: Alexandre Barata contacto: alexandregbarata@gmail.com

AA: Ena, que lindos! E foi aqui que começaste a desenhar?

G: A paixão pelo desenho sempre fez parte de mim… No entanto após me ter dedicado exclusivamente à preservação do ambiente como um estudo e uma profissão, surgiu a oportunidade de tirar um curso de ilustração científica… Basicamente, encontrei uma nova paixão!

E que paixão era! Tão lindas essas imagens que acabam por preservar também a estética natural e conquistar-nos para a paixão pela natureza. Fiquei a observá-los mais algum tempo, absorvendo as suas palavras:

G:Desde então, nunca mais parei! Tento sempre conciliar as duas coisas… o que nem sempre é fácil. Adoro estudar os animais e depois retratá-los. Às vezes corre melhor, outras vezes nem tanto, mas faz parte (sorria).

AA: Não me podes deslindar um pouco do teu dia?

G:Bem, o meu dia-a-dia varia muito… Posso estar a pintar de manhã à noite, a acabar quadros ou encomendas. Mas outros dias, quando o tempo me permite, cuido da horta, de manhã e à tardinha. Para além disso, dou aulas de desenho e faço workshops de agricultura biológica e ecologia. Mas aquilo que me faz sentir mais realizada é contribuir para a preservação do bosque. – desde o controle de espécies invasoras como as Acácias, a Vinha-virgem, as Tintureiras, ou as Ervas-das-Pampas, à plantação de árvores autóctones.

créditos fotográficos: Alexandre Barata contacto: alexandregbarata@gmail.com

AA: Consegues impactar de tantas formas diferentes…

G: Eu tento mudar o mundo para melhor, mas tenho consciência que sou demasiado “pequenina” para ter um grande impacto no grande plano. Ainda assim, penso da seguinte maneira – Imagina que a tua mãe estava a ser espancada! Ficavas a ver ou tentavas impedir? Mesmo que não conseguisses travar todos os golpes, nunca irias permanecer indiferente! E mais importante, nunca irias juntar-te aos agressores da tua mãe… Essa mãe é o nosso planeta, a natureza, a nossa casa. É assim que eu vejo, temos de fazer alguma coisa.

Ao ver a inscrição na sua porta “Queria ser uma árvore”, também eu fiquei a sorrir. Que estranho isso de se querer ser árvore. Ao observar-me a mulher que queria ser uma árvore segredou-me:

G: As árvores limpam o ar, dão abrigo a outros seres… Existem e têm um impacto positivo. Eu, humana, por mais que tente não conseguirei ser assim, perfeita harmonia com a natureza. É por isso que queria ser uma árvore, fascinam-me!

AA: Sempre prestas a tua homenagem, com tudo o que fazes, com os teus desenhos…

G: Pintar, para mim, é uma forma de expressar o que me vai na alma. Expresso o amor que tenho à natureza, através da arte, na esperança de que as outras pessoas vejam a beleza que há na nossa fauna e flora. Sou verdadeiramente apaixonada pela flora e fauna autóctones de Portugal. A Guardiã do Bosque nasce da necessidade de proteger os pequenos ecossistemas nativos de Portugal que ainda prosperam…Mas perdem terreno para eucaliptos, invasoras exóticas…

    Pinto no papel, na tela e no corpo. Bodypainting é impressionante, comecei a pintar na pele para dar um passo mais à frente na consciencialização para a preservação da natureza. Quando compras um quadro de um animal, ou de uma planta é como se o aceitasses na tua casa. Mas quando o pintas no teu corpo é como se dissesses “És parte de mim!”. Porque no fim de contas somos todos parte da Natureza… É uma conexão total.

créditos fotográficos: Alexandre Barata contacto: alexandregbarata@gmail.com

AA: E os fogos, os incêndios afligem-te…

G: Os fogos destruíram e destroem muita floresta… (parou de sorrir pela primeira vez, senti a candura da sua voz ficar áspera e cansada) Preocupam-me os nossos animais sem território para prosperarem, os plásticos que contaminam o solo, a paisagem e o mar…Preocupa-me a agricultura industrial, os químicos sintéticos e a forma como as pessoas se desconectaram da natureza.

Olhou a janela, onde o verde que nos rodeava se deixava espreitar, e uma aldeia serrana nos cumprimentava.

G: Quando vim para aqui, para a aldeia, imaginei um lugar onde tudo fosse mais saudável. Deparei-me na verdade com contaminações do solo como nunca antes tinha visto. Devido à quantidade de herbicidas que colocam nas terras…. Todos os terrenos são pulverizados inúmeras vezes por ano. Os animais, desde sapos a ouriços cacheiros são odiados e mortos… E eu tento, tento proteger todos os que encontro, aranhas, sapos, ouriços… Mas não consigo chegar a todos.

AA: E no futuro… no futuro o que podemos nós fazer?

A Guardiã do Bosque encaminhou-me gentilmente até à orla da clareira que eu tinha achado por acaso, dizendo-me sem falar que era hora de seguir viagem. Poisou os seus olhos nos meus:

G: O melhor que podemos fazer é reproduzir as boas ações vezes e vezes sem conta! É isso que eu quero fazer… Continuar a proteger o bosque e estes seres que vivem nele. Aproveitar os pequenos paraísos que vão recuperando, filhos dessa proteção. Que deixemos a liberdade à natureza para ser ela própria!

E eu não sei se foi o ar dos pinheiros, se foi o sol a passar pelos recortes das folhas, se foi a forma como falou, mas estas palavras preencheram-me por inteiro. E se bem que a Guardiã não pode chegar a todo o lado, foi ali mais uma vez que salvou a coisa mais importante que tenho – a fé num amanhã melhor.

Assim é, no Alentejo.

 

créditos fotográficos: Alexandre Barata
contacto: alexandregbarata@gmail.com

André Afonso

Nasci em '95 em Serpa, Alentejo e, por isso, gosto das coisas que se alargam e duram como as searas e vivo bem a brandura quente do sol de Verão ou o rigor do frio de Janeiro. Sou Agrónomo, mas um pouco mais do que isso - gosto de investigar a cultura destas gentes, seja a música ou as excelentes mil maneiras de aproveitar utilizar Pão na cozinha!

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