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Crónicas

Gavinha

A festa comemorava os dez anos de vida – ou os cem, se cada vida for somada depois de reconhecida, na pequena filha dos donos da casa.

A região da cidade em que moravam crescia a olhos vistos, a partir do lago até o topo de duas colinas. Como se um sulco tivesse sido feito num planalto e a vida germinasse nessa linha.

Os que adquiriam os lotes de terra roxa mandavam arrancar o mato alto e cortante. Capim-limão, Capim vencedor, Capim-de-burro, Carrapateira.

Da colina menos habitada, a meio de uma rua recém-aberta, o olhar da pequena pôde descobrir a casa mais sedutora das redondezas. Era o equilíbrio da construção que ela admirava do outro lado de si, a exuberância possível, um meio-termo entre a falta de um estilo completamente marcado pelo tempo e a adequação ao tempo que ela conhecia, que era de sol e de água, de um calor pesado que envolvia o corpo ou na moleza mais doce ou numa calma resignada. Se um dia já viveu ali, foi sempre o retrato da casa, tão altiva quanto ela, tão compenetrada que parecia altiva. No presente, talvez ela visse a construção a mexer-se e ao invés de alguém subir à torre fosse a torre crescendo e enchendo, crescendo e enchendo, com mais tijolos, mais escotilhas, mais buracos para a entrada dos pássaros. Toda aquela região da cidade cabia ali, era no que a pequena acreditava.

A festa. A roupa da festa tinha sido copiada de um modelo que vinha na revista da costureira, porque a pequena queria esconder os seios em botão, os ombros magros e aquela perfuração misteriosa, o umbigo. Aquela fase do seu crescimento alegrava-me como se eu estivesse à mesa do bolo ou no banco do caramanchão já pontilhado de maracujás. A filha que não tive me emocionava sem saber quem fui e quem me tornei. Sua introspeção não era sinal de que compreendesse minhas lutas nem as alianças que fiz – tampouco o sentimento que em mim dizia, sempre, para abraçar os que precisam de ajuda. Sua introspeção era sinal de vida. A vida nos pequenos saltos, a vida visível a olho nu, a vida.

Foram em parte as fotografias coladas no álbum encapado com um tecido rosa áspero que fizeram de mim uma presença privilegiada no dia da festa. Eu que estive distante apenas na celebração dos dez anos; distância aceite e somente. Por uma das fotografias, eu soube que a pequena recebia as amigas no degrau mais alto da escada, protegida por uma meia-água, naquela face da casa onde o maracujá não se espalhava. Ainda sem corrimão, de piso em cascalho e areia aglomerados, a escada devia ser percorrida pela visitante recém-chegada e não pela dona da festa; e assim eu a supus entre ansiosa e envergonhada naquele dia. Atravessado o aclive ligeiramente curvo, elas entravam juntas pela sala, cruzavam a copa e saíam pela porta envidraçada da varanda, alcançando o quintal, sítio do meu maracujá em flor e suas gavinhas. Se lá estivesse, com as pontas dos dedos esticaria ao limite a gavinha mais longa que o braço alcançasse. Verde água com laivos de roxo, lisa e fresca da chuva que tinha caído torrencialmente. Só chovia aos cântaros na cidade, só essa chuva, ao menos, inunda a minha lembrança.

A Berenice, que fazia a limpeza da casa, também não me sai da lembrança desde que fechei o álbum de fotografias. O silêncio prolongado era o seu cartão de visitas, mas recordo as risadas abafadas que o interrompiam; naquele dia foi por obra dela que se fez o som, foi ela quem bateu palmas com a música, quem tamborilou e apequena apanhou o ritmo. Elas batucaram juntas, elas dançaram. Na festa improvisada, a surpresa dessa colaboração fora tão bonita quanto uma flor de maracujá.

Da boca da própria pequena eu ouvi mais tarde: “Foi ela! Foi ela quem me salvou, padrinho. A Berê!” Puxou as minhas amigas batendo palmas, até formar um círculo, aqui no quintal, e dançámos um samba, sorrindo de mãos dadas. E eu imaginei os pés das meninas calçados em sandálias de couro, as sandálias da estação a martelar o piso escuro e quebradiço do patamar mais largo do quintal. Ela precisava daquela mão e finalmente aceitou-a; tão solitária e tão esquiva, a pequena aceitou o aconchego que a outra mão oferecia. Dançou. Minha riqueza! Minha flor a sacudir ao vento.

Até hoje ela dança, ao limpar a casa, e, quando precisa encontrar-se com a própria alma, a pequena dança. Na primeira busca pela melodia da Berenice, o desejo de si despertou feliz e ela pareceu revigorada, dia dos dez anos, dia de céu aberto.

Num texto composto para um concurso escolar, texto que a mãe e o pai guardaram para mim na volta do exílio, eu li:

Não me abandonou depois disso uma cena, ela se multiplica em mim, aliás: existe um grupo que dança comigo. Dançamos muito bem! Parece que estivemos a coreografar, mas é maior do que isso. E eu, ainda salvo o dia de alguém mesmo sem ensaio, sem coreografia? Vamos girar, esticar aqui e ali, o corpo para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo; olhamos uns para os outros com esperança e humildade, numa rua feita de palco, sem queixa, só harmonia.

Eu reconheci a pequena, eu reconheci Berê, mais o espaço da casa, na graça sutil (feito estrela cadente) de poder rever um dia bem passado, repassado. Eu também estive lá e rodopiei, com uma simples gavinha no indicador.

E depois e depois voltei a ser prisioneiro, em rotação com memórias, sempre pungentes, na dor e na compaixão.

Betina Ruiz

Nasci em 74, no Brasil. Lá estudei Letras, dei aulas, participei em alguns projetos ligados à educação. Estou em Portugal faz pouco mais de 13 anos. Também aqui fui professora e estive na universidade. E por duas vezes fui parar ao comércio! Por que não?

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