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A música acabou

A música acabou.

Não é permitido trabalhar fora de casa, ir à escola, rir em voz alta, usar sapatos com salto alto, praticar desporto ou andar de bicicleta. A roupa colorida não é permitida, tal como a maquilhagem, falar com estranhos, olhar pela janela, tirar fotografias ou deixar-se fotografar. Nenhuma imagem feminina deve estar visível na rua. Espera-se que as mulheres desapareçam da vida em sociedade. Seria quase cómico, não fosse tão trágico.

Esta será a nova realidade das mulheres no Afeganistão, que voltou à ordem do dia e pelos piores motivos. Contra todas as expectativas, passados 20 anos, os talibãs voltaram ao poder. E com a sua ascensão, caiem por terra todos os avanços, sonhos e esperanças desenvolvidos e investidos nestas últimas duas décadas.

Não tenhamos dúvidas, é terrível para todos os afegãos, bem como para a estabilidade mundial, no entanto e uma vez mais, será para as meninas e mulheres a quem tudo isto sairá bem mais caro. Serão elas as mais sacrificadas, os alvos de fúria, as que servirão de exemplo. 

Não é novo que na guerra dos homens, são as meninas e as mulheres quem mais sofre. São uma espécie de arma de arremesso, utilizada entre vencedores e vencidos, para macular a honra de uns e assim celebrar o sacrifício da vitória de outros. Objetos, sem humanidade, que existem com o único propósito de servir e satisfazer. Assim foi na Segunda Guerra Mundial, quando se raptavam mulheres, de ambos os lados, para serem “usadas” em bordeis pelos soldados, no Vietnam, na Guerra da Bósnia, no Congo, entre tantos outros. Despojos de Guerra.

No Afeganistão de 2021, infelizmente, não se prevê que seja diferente.

Os talibãs entraram com uma aparente postura moderada e pragmática, face a 2001. No entanto, à medida que os dias passam, o discurso começa a endurecer e, se é verdade que no dia da tomada de Cabul ninguém acreditava nas promessas do primeiro comunicado, hoje, com a saída das forças ocidentais, muito menos. Começam os relatos de mortes, as violações e as listagens de mulheres e meninas, que devem “casar” com os combatentes talibã. As mulheres já foram aconselhadas a desistir do trabalho e dos estudos, das roupas roupas leves e da vida em sociedade. Devem voltar à burka e permanecer em casa. A música acabou. É o fim de tudo o que foi conquistado nos últimos 20 anos.

Não nos iludamos, nos últimos anos, o Afeganistão não foi um país saudável e pacífico, nem tampouco um bom sítio para se ser mulher – sim, porque para as mulheres não basta nascer, é preciso sorte no local onde se nasce. Pelo contrário, nas últimas duas décadas, continuou a ser uma zona de conflito, com inúmeras violações dos direitos humanos, mas em que aos poucos se começaram a notar ligeiras mudanças e algum progresso, especialmente nas questões sociais e no papel da mulher em termos de representatividade política, educação, trabalho e cuidados de saúde. Em 2017, 33% das meninas afegãs frequentavam o ensino primário, um número absurdamente baixo se compararmos com os valores ocidentais, mas uma fantástica evolução se fizermos o paralelismo com 2003, em que eram menos de 10%. Em 2020, 21% dos burocratas afegãos eram mulheres, comparativamente a 0% durante o regime talibã. A esperança média de vida das mulheres afegãs aumentou de 57 anos em 2000 para 66 anos em 2018, a mortalidade materna baixou de 1.450 em 2000, para 638 em 2018, por cada 100.000 nascimentos. Pequenas evoluções suportadas por uma nova geração com acesso a educação, no entanto, a norma cultural persistiu.

Um estudo de 2019, concluiu que apenas 15% dos homens afegãos, acreditava que as mulheres casadas deveriam ser autorizadas a continuar a trabalhar fora de casa, enquanto dois terços dos homens acreditava que as mulheres tinham demasiados direitos. O mesmo estudo deu nota de uma clara tendência, em alguns setores da sociedade afegã, de crescimento do conservadorismo e da recetividade às interpretações radicais da Sharia (lei islâmica), que corta vários direitos e liberdades às mulheres, de entre as quais, a educação. 

A educação e os livros são os piores inimigos dos regimes autoritários, porque a tirania não sobrevive numa sociedade informada e com acesso à educação. Ao mesmo tempo que a liberdade precisa de educação para sobreviver.

É em completa agonia que assistimos a jovens mulheres, que cresceram com esperança no futuro e resiliência no coração, muitas delas sem nunca terem usado uma burka e a quem foi permitido sonhar, terem que, de um momento para o outro, queimar todo e qualquer vestígio dessa liberdade e de todas as suas conquistas. Livros, diplomas, registos de escolaridade, provas de uma vida anterior àquela que agora espreita, que outrora foram a promessa de um futuro risonho e que agora são uma ameaça à sobrevivência.

Que nos inspiremos nelas a cuidar da nossa própria liberdade. Que consciencializemos que a liberdade e a democracia são conceitos frágeis e sensíveis, que não devem ser dados como garantidos, mas sim cuidados e alimentados a livros, ideias e partilha. A multiplicidade de ideias e de opiniões, enriquece as sociedades e promove a evolução e o desenvolvimento, através do debate e da discussão saudável.

Que o terror a que assistimos, de tantos milhões de pessoas – de tantas mulheres, a sua luta pela sobrevivência e pela garantia de direitos fundamentais, funcione como um lembrete constante do quão privilegiados somos. Que nos inspiremos, uma vez mais, na educação e na liberdade, para dar voz a quem a perde!

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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