A Crónica da Lili: Onde é que eu já vi isto?

Senhoras e senhores, sejam bem-vindos à Crónica da Lili.

O calendário de janeiro foi preenchido pelo glamour das semanas de moda e por entregas de prémios em Hollywood, mas estes não são os assuntos sobre os quais vou dedicar a minha atenção na crónica deste mês. “Onde é que eu já vi isto?” é a pergunta que levanto nas próximas linhas e entrelinhas.

As casas de moda entraram na cápsula do tempo, foram até ao baú e repescaram para a passarela os seus grandes hits. Da Prada à Dior, passando pela Chanel e pela Versace, a tendência já se instalou. A nostalgia veio para ficar.

Anos 2000. Hollywood. E uma irreverência destemida na forma de vestir. Jennifer Lopez era – e continua a ser – um dos nomes com mais sucesso no showbiz. É detentora de uma beleza latina e de umas invejadas curvas de fazer parar o trânsito. Qualquer trapinho lhe assenta na perfeição. Não há volta a dar. É a JLO e ponto final. Na 43.ª edição dos Grammy Awards, pegou fogo à red carpet com um vestido da criação de Donatella Versace. Não era apenas um simples vestido. Era O V-E-S-T-I-D-O. Verde, transparente e com um decote a ultrapassar o umbigo – daqueles que até fazem os religiosos benzerem-se. Quais vencedores, quais quê. Jennifer Lopez foi assunto da noite. O impacto foi tal que, hoje em dia, continua a ser motivo de conversa. A prova está na coleção Pré-Fall 2019 da Versace. A nossa amiga Donatella foi até aos arquivos e reinterpretou o icónico decote afunilado de um dos vestidos mais comentados da história da moda. Desta vez, dá uma chance ao preto e arrisca num padrão mais romântico, aos corações. No departamento dos acessórios, a body chain é a grande protagonista.

Coleção Versace Pré-Fall 2019 e Jennifer Lopez nos Grammy Awards, em 2000

Quem também já se rendeu a esta onda nostálgica foi a Dior com o comeback da saddle bag. É pequena, oblíqua, com apontamentos em dourado e o logotipo da marca. Em tempos, já a vimos em Carrie Bradshaw, a personagem principal de “Sexo e a Cidade”, e em Paris Hilton. Agora, em pleno século XXI, voltamos a deitar a mão à saddle bag. Nela cabem apenas os essenciais para a sobrevivência de uma mulher: o porta-moedas, o baton, as chaves e o telemóvel. Contudo, nem isso é impedimento para o seu sucesso. Ao modelo clássico, criado por John Galliano, foram-se juntando ao longo dos anos outros restantes modelos. Até à data, contabilizam-se 20 saddle bags de várias cores e padrões. É caso para dizer: agrada a gregos e a troianos.

A saddle bag em Carrie Bradshaw e no street style das semanas de moda

Marc Jacobs entrou na cápsula do tempo e viajou até 1993, mais precisamente até à coleção grunge que criou para a marca americana Perry Ellis, e pô-la, exatamente igual, à venda em novembro do ano passado. Com este regresso, tivemos até direito a voltar a ver Naomi Campbell com o mesmo outfit de há 25 anos – com beanie arco-íris incluído. Foi o resgatar de uma época em que se derrubaram as barreiras do pudor, em que se mudaram os hábitos e costumes de uma sociedade que em tempos estava presa pelo espartilho das boas maneiras. Houve quem na altura criticasse a coleção. Suzy Menkes, Cathy Horyn e uns tantos outros nomes da indústria. A situação inverteu-se. Hoje, aplaude-se a irreverência de Marc Jacobs.

Naomi Campbell e a coleção grunge de Marc Jobs em 2019 e 1993

Leandra Medine, fashionista e criadora do blog “Man Repeller”, já se pronunciou sobre o regresso dos grandes sucessos das casas de moda. Numa review publicada na sua página oficial sobre o desfile da coleção Pre-Fall da Chanel com referências ao Antigo Egipto, revelou que o que é novo nem sempre é revolucionário e acrescentou que “a forma de vestir trazida do passado, colocada no contexto do presente pode contar uma história interessante sobre o futuro. E honrar, mesmo louvando o trabalho que já foi feito e trazendo-o de volta para a linha da frente, à sua maneira, uma forma de seguir em frente.” Leandra, não posso estar mais de acordo contigo.

A nostalgia contagia a música, o cinema, a fotografia e, agora, a moda. Recuamos na história para trazer para a atualidade o que em tempos já nos fez feliz. As coleções, as peças e as tendências estão a ser constantemente repescadas para a era em que vivemos. Se ao ler uma revista encontrar um vestido idêntico aquele que há uma década ansiava comprar, questione-se: “Onde é que eu já vi isto?”

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