A arte como expressão do inconsciente

A criação artística é um processo complexo que passa por diferentes etapas até à materialização da obra de arte. A primeira etapa deste processo é a inspiração. O artista procura estímulos e influências, que podem ser encontrados na paisagem ao seu redor, nas suas experiências pessoais ou nas questões sociais do seu tempo. Só após essa fase de pesquisa é que o artista parte para a concretização da obra, utilizando diferentes técnicas.

No século XX, a invenção da psicanálise introduziu um novo elemento estimulante e inspirador para o artista: o inconsciente – esse misterioso e íntimo elemento que comanda a ação humana à revelia da consciência, a grande descoberta de Sigmund Freud.

Para Freud (1856–1939), a arte está intimamente ligada à fantasia. É na mente subconsciente, e não na mente racional, que se encontram os ingredientes fundamentais da criação artística. Sendo assim, os artistas deveriam procurar métodos que os conectassem à sua psique e que trouxessem à tona questões emocionais e psicológicas profundas.

A teoria freudiana passou a ser interpretada e divulgada como um modo de leitura próprio do surrealismo, alinhado com os seus objetivos estéticos. A livre associação de ideias e a análise dos sonhos, ambos métodos da psicanálise, tornaram-se fundamentais neste movimento artístico. Artistas muito diferentes entre eles, como Salvador Dalí, Frida Kahlo e René Magritte, integraram elementos do inconsciente nas suas obras. A arte passou, então, a ser muito mais do que uma simples expressão estética – tornou-se uma exploração da mente humana na sua complexidade.

Cruzeiro Seixas
, com a obra aqui ilustrada “Sem Título” (1961), ilustra bem este princípio. Os seus desenhos, embora figurativos, são representações de outra realidade: a alma humana. Tal como outros surrealistas, Seixas demonstra que aquilo que vemos, aquilo que percebemos, aquilo que os nossos sentidos tomam por real, não é mais do que uma sombra do que se passa na nossa mente. [Foto: Cruzeiro Seixas – Cruzeiro Seixas – Wikipédia, a enciclopédia livre]

Freud também influenciou profundamente a teoria da arte, ao argumentar que a criação artística é uma forma de sublimação dos desejos reprimidos. Esta influência estende-se até aos dias de hoje: muitos artistas contemporâneos, através das suas obras, dão voz a emoções proibidas e temas censurados, explorando as profundezas da mente humana.

Paula Rego, por exemplo, recorre frequentemente a elementos dos contos de fadas como ponto de partida para refletir sobre a psicologia e sociedade. A artista questiona a perversidade implícita nesses contos e os mecanismos repressivos que eles representam. O exemplo ilustrado, na foto da capa, trata do popular conto “Branca de Neve”. Numa entrevista, Paula Rego afirmou:“ Realizar uma pintura como esta pode revelar coisas que guardamos em segredo de nós mesmos”

A psicanálise teve ainda um papel importante na desconstrução das normas estéticas, abrindo caminho para que os artistas explorassem novas formas de expressão. A escultura inspirada no tradicional coração de Viana -“Coração Independente Vermelho”, de Joana Vasconcelos, é um exemplo disso. Trata-se de uma peça monumental inspirada na filigrana portuguesa, mas composta por objetos do quotidiano – talheres de plástico vermelhos. A artista questiona assim o estatuto da mulher, as aspirações femininas, a sociedade de consumo e a própria identidade coletiva.

A introdução de elementos psicológicos no processo criativo ajuda-nos a compreender melhor a diversidade de estilos e movimentos artísticos, mostrando que cada um representa uma expressão única da mente humana. Por isso, a arte constitui um rico e diversificado estímulo visual, um verdadeiro banquete para os olhos e para a alma!

Nota: Este artigo foi escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

[Foto da capa: Branca de Neve por Paula Rego – Tate Gallery, London- Tate]
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