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O outono tinha voltado

Taças de chá quente, de café com leite quentinho, com bolo acabado de sair do forno. O cheiro a quente. Uma manta a tapar as pernas enquanto se vê um bom filme. Velas com cheiro a canela num chão de madeira encerada. O escurecer cedo lá fora, o escuro madrugador na janela, no vidro, onde só se vê negro com pontos de luz longínquos, lá, longe. Meias nos pés, aconchegantes, fofinhas, que protegem o corpo e a alma.

Folhas amarelas e castanhas na rua, nos passeios abandonados e nos carros estacionados; nas teclas de pianos que se tocam ao lado de uma janela aberta, e na carpete azul do quarto, mesmo ao lado da guitarra. As primeiras camisolas quentinhas, os casacos protectores de meia estação. Cores. Camel, amarelo torrado, ferrugem, cinzentos, cor de vinho. Branco no céu nebuloso e nos primeiros gorros da moda. A rua com o seu tempo melancólico, às vezes regado com chuva. Trovoada. E calma, só escuro, só cinzento, só amarelo. Castanhas assadas. Ah, o cheiro a castanhas assadas que nos chega com a voz da mulher que vende, a calma e a pressa das pessoas que compram.

Passos na chuva, e guarda-chuvas incómodos que chocam. Cheiro a chuva, a orvalho, a terra molhada, com passeios brilhantes e estradas perigosas. Ou passos por cima das folhas amarelas secas que estalam debaixo dos pés, que se destroem nas vidas apressadas de uns pés incógnitos, de uns pés cegos que não as vêem. Botas de camurça e galochas a saltar por cima das folhas e o som do riso, da gargalhada digna da chegada do fim-de-semana.

Ela olhava em redor enquanto fechava o casaco quente numa espécie de abraço, a proteger e aconchegar-se a si própria. Um meio sorriso, feliz mas triste. Ou triste mas feliz, não se tinha decidido.

O Outono tinha voltado.

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