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A âncora da adolescência

A minha incapacidade para decorar está inversamente relacionada com a minha boa memória. Tenho o cérebro repleto de informações que à partida não teriam interesse nenhum mas que me fazem uma excelente jogadora do Joker, ainda que em casa. Memorizo o que percebo e o que me desperta curiosidade. Gosto de saber o porquê das coisas e tenho dificuldade em assimilar dogmas inexplicáveis.

Dei por mim, há pouco tempo, a analisar a origem dos meus gostos. O porquê de gostar de determinado tipo de música em detrimento de outro, por exemplo, ou o porquê de preferir certo género literário. Sendo a nossa família, em particular os nossos pais, os alicerces da nossa personalidade enquanto exemplo de valores base que são impressos na nossa infância, é na adolescência que a nossa alma fica colorida. As cores ganhas não são estáticas e vão-se adaptando aos degraus do nosso caminho, mas uma alma que aos 16 anos seja arco-íris é pouco provável que aos 40 seja cinzenta.

Quem começou a ler poesia na adolescência, vai sempre sentir que a poesia é parte integrante do seu crescimento e da sua postura perante o mundo. Quem se fez acompanhar por rebeldes vai ter sempre uma impressão rebelde na sua vida, por muito disfarçada que esteja no seu quotidiano. É uma tarefa inglória tentar desligar o adulto do adolescente que já foi. A intensidade dos dias e das noites da adolescência, as histórias vividas em pleno e contadas vezes sem fim e os amores loucos e descabidos ficam de tal forma tatuados na nossa alma que o adulto que somos é um eco desprendido daquilo que já vivemos. O laço com o que foi construído quando deixamos de ser crianças e atravessamos o delicado caminho que nos leva às mulheres e homens que somos, é inquebrável.

Não somos adolescentes grandes, mas fomos adolescentes que se transformaram em adultos. Orgulhosos das amizades, das histórias e das conquistas. Deixando o passado onde ele deve estar, mas não o esquecendo para percebermos o que somos. É na adolescência que lemos o primeiro livro que nos marca. É na adolescência que amamos pela primeira vez. É na adolescência que ouvimos aquela música que nos vai sempre transportar ao passado mesmo que vivamos apenas de futuro. Fomos imortais e é na aproximação da fatalidade dos dias que voltamos sempre aos nossos doces 16 anos.

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