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Luísa de Jesus

Todas as mulheres possuem instinto maternal e sabem ouvir o seu relógio biológico. Esta é uma frase que é solta amiúde e tem o seu quê de verdade. O poder da procriação é feminino, mas só este gâmeta não é suficiente.

Algumas mulheres são mães em toda a linha, mas outras há que não foram dotadas com a capacidade de espalhar amor e bondade. Uma mãe é a mulher que tem poderes especiais que nunca se perdem.

Luísa de Jesus era uma mulher jovem que teve existência numa Coimbra setecentista. A vida não lhe tinha sido muito generosa, em termos de bens, o que a obrigava a um enorme esforço, a fazer o que fosse preciso, pelo seu sustento.

Era uma espécie de almocreve, ou burro de carga, pois fazia a ligação entre as compras e as vendas entre várias localidades. Nesse percurso acabou por estabelecer contactos que lhe foram muito úteis. Sobretudo com famílias ricas.

Era ainda o tempo da má afamada Roda dos Enjeitados, aquela que recolhia crianças recém-nascidas ou muito pequenas. A vergonha de certas mulheres e a culpa de tantas outras. A miséria de uma vida ingrata. Nunca os homens eram culpados.

Esta ficava na porta de um convento e, depois da criança ter sido colocada no suporte, tocava-se um sino para ser recolhida pelas freiras. Com sorte teriam um futuro melhor que o abandono ou a rua.

Luísa, uma mulher de fraca figura e com olhos claros sem qualquer tipo de expressão, passará a ser o elo de ligação entre várias mulheres, umas ricas e outras pobres, que não têm filhos, com os bebés sem família.

Para tal, as adoptantes receberiam 600 réis e o enxoval, um incentivo para as menos abonadas seguirem com a criação da criança. Luísa era a responsável pela documentação e escolhia a família certa para cada abandonado.

Curiosamente eram todas ricas e durante dois anos foi este o seu viver, a entrega dos tristes rebentos sem mãe, ou pai, a quem lhes queria dar um lar. Manuel Gomes seria o seu marido.

Em 1772, Ângela Maria, uma mulher simples, caminhava pelo Monte Novo e tropeça em algo muito estranho. Era o cadáver de um bebé com marcas de dedos no pescoço e enterrado de forma negligente. Chama a polícia.

A descoberta macabra leva a investigações e a uma suspeita, Luísa de Jesus. O Monte Novo e as redondezas são revirados e as várias escavações revelam a existência de 33 cadáveres.

Luísa apenas admite a autoria de 28 deles. Contudo, houve suspeita de serem ainda mais. Os tempos eram outros e os registos seriam pouco fiéis, revelando que alguns técnicos não teriam escrúpulos e se deixavam corromper.

Não mostra qualquer tipo de arrependimento. Afirma que aquelas mulheres eram ricas e, como tal, não precisavam de dinheiro nem do enxoval. Usou tudo em seu benefício. O marido desapareceu sem deixar rasto.

Condenada à morte, ainda sofreu uma maior humilhação. Foi atenazada e conduzida pelas ruas de Lisboa até à forca, com um baraço ao pescoço, relatando os seus crimes, publicamente, para que ouvissem os seus crimes.

Já no cadafalso, junto à forca, para que todos visualizassem, cortaram-lhe as mãos e foi garrotada até morrer. O seu semblante nunca se alterou. O cadáver foi queimado para não haver restos mortais e não se criarem cultos estranhos.

Esse dia, 1 de Julho de 1772, tornou-se um marco histórico por vários motivos e bem díspares. Esta foi a última mulher a ser executada em Portugal e o seu crime foi hediondo. Como foi possível uma mulher praticar tais actos?

A Roda dos Enjeitados era o último reduto de muitas mulheres. Não se pense que eram só as mulheres de baixa condição que ali entregavam os filhos, a desonra e humilhação contemplava também as mais abastadas.

O caso da Luísa de Jesus pode parecer assaz escabroso e desumano, mas, para se melhor entender as causas, naqueles tempos bem duros onde imperava a miséria, certas soluções radicais colmatavam os problemas.

Os inocentes é que são sempre as vítimas, os que padeceram os horrores, as torturas ou ainda pior, serem levados até à morte, por mãos de quem não tem um pingo de humanidade, com uma capa de falsa protecção.

A questão que se coloca, bem pertinente, é sobre a sua essência, o íntimo que a regulava. Teria esta mulher algum instinto maternal? Matar recém-nascidos, seres indefesos para lhes roubar o dote e o enxoval, é do mais baixo que possa haver.

Luísa de Jesus, que nome carregado de ironia. Certamente teve uma educação religiosa e as ideias do bem e do mal, apesar de relativas, estavam implícitas. Não obstante esse lavrar, não hesitou em matar seres de tenra idade.

O que leva uma mulher, o receptáculo de vida e aquele depósito de um amor inexplicável, a praticar esses hediondos actos? Seria interessante este estudo aprofundado.

A sociedade julgou-a, a História eternizou-a e o tempo, um certo curador, fez por a apagar. Os que não se puderam defender, ainda clamam por justiça.

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