Ser português é, antes de tudo, uma identidade que vai além da geografia. Não se limita ao território nem cabe apenas no retângulo à beira-mar plantado. É uma forma de estar no mundo feita de contrastes entre o passado e o futuro, entre a saudade e a esperança, entre a tradição e o que ainda está por vir.
Quem é português nasce ou vive num país pequeno com uma História imensa. Ao longo dos séculos, navegámos mares desconhecidos, deixámos marcas por onde passámos e acolhemos culturas no nosso próprio seio. Fomos pioneiros na interligação do planeta, abrindo caminho para a globalização. Mais do que conquistadores ou exploradores, fomos transmissores de língua e de cultura. Hoje, o português é uma das línguas mais faladas no mundo — um legado que continua vivo.
Contudo, se por um lado nos orgulhamos disso, por outro hesitamos. Oscilamos entre a valorização do que somos e a tendência para subestimar tudo o que é nosso. Comparamos, muitas vezes, Portugal a outros países como se estivéssemos sempre em desvantagem. Falta-nos, por vezes, a consciência do valor que a nossa cultura representa no mundo.
Ser português é também sentir saudade — essa palavra que só nós temos, mas que todos compreendem quando a explicamos. Esse saudosismo coletivo traz consigo um certo desejo de voltar a tempos de glória, mesmo quando não os conhecemos bem. Persiste em nós uma espécie de veia sebastianista: a esperança vaga de que algo ou alguém surgirá para nos salvar envolto numa manhã de nevoeiro. É um sentimento ambíguo entre o saber e o desconhecimento, entre o conforto e uma inquietação disfarçada.
Apesar disso, somos um povo com sentido de humor. Rimo-nos de tudo: da política, da crise, da burocracia, até de nós próprios. É a nossa forma de lidar com o que não conseguimos mudar. Queixamo-nos, sim, mas fazemos. E quando não fazemos, damos um jeito. É o famoso “desenrascanço”, essa capacidade quase natural de resolver os problemas à última hora.
Temos gosto pelas coisas simples. O sabor a mar e a serra, a sardinha assada no pão, o churrasco ao domingo. Vibramos com a seleção nacional de futebol e cantamos o hino com a mão no peito. O fado, mais do que música, é uma expressão de identidade. Somos herdeiros de castelos, de mouras encantadas, de poetas, de descobridores e de camponeses, de revoluções e de resistências.
Somos também um povo habituado a partir. A emigração faz parte da nossa História e da nossa atualidade. Muitos portugueses continuam a sair em busca de melhores condições de vida. Vão com a mala cheia de expectativas e uma forte capacidade de adaptação. Sabem lidar com outras línguas, outros climas, outras regras. E apesar de, por vezes, mostrarem alguma subserviência, são reconhecidos pelo profissionalismo e pela capacidade de integração.
Ser português é reconhecer a diversidade que compõe o nosso povo. Portugal é feito de muitas origens, influências e trajetórias. Como disse Lídia Jorge no seu discurso do 10 de junho de 2025, “todo o português tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas.” (1)
É esta mistura que nos torna únicos com características e sotaques específicos de norte a sul. Ser português é ser parte de uma História em constante transformação com motivos de orgulho e outros menos dignos mas que são nossos, com força, com memória e com futuro.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.
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