No meu Tempo é que era Bom!

É comum ouvir a expressão “no meu tempo era tudo melhor” ou “a juventude de hoje não sabe o que é viver de verdade”. Esta perceção de que o passado foi superior ao presente atravessa gerações e parece ser quase universal, mas por que é que isso acontece?

A questão não é nova. Atentemos na História que nos deixa registos pertinentes quanto a este assunto. No mundo da Antiguidade, muitos filósofos deixaram testemunhos de queixas em relação aos mais jovens. Platão, por exemplo, lamentava a falta de respeito dos filhos para com os pais. Hesíodo, ainda antes dele, dizia que os jovens seus contemporâneos “não pensam em nada além de divertimento e não têm paciência para a sabedoria”.

Numa carta datada de 1771, o conde de Chesterfield escreveu que “os jovens de hoje imaginam-se mais sábios do que os anciãos”.

Nietzsche, com sua mordacidade, dizia que “a maturidade do homem consiste em reencontrar a seriedade que tinha ao brincar quando era criança.”[i] Talvez seja isso que falta aos mais velhos quando falam dos jovens, ou seja, a memória da própria juventude. Com frequência, esquecem-se de que também foram irreverentes, erraram, e, igualmente, criticaram a geração anterior.

Saramago[ii] escreveu que “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos.” Ora, se a memória falha, a responsabilidade desvirtua-se. Os velhos esquecem-se de que os jovens não são versões defeituosas de si mesmos. São expressões inéditas daquilo que o mundo agora exige. Esperar que pensem, sintam ou ajam da mesma forma que se fazia num tempo que não é o deles, não parece coerente.

Camus[iii] defendia que “toda a geração se crê destinada a refazer o mundo.” E talvez essa seja a grande fonte de atrito. Os jovens tentam criar, e os mais velhos tentam preservar. Ambos são necessários. Contudo, a convivência entre estes dois tempos é difícil. O que para uns é reinvenção, para os outros afigura-se como ameaça.

A estas reflexões não é alheio o envelhecimento que não é apenas físico, mas também simbólico. Ao envelhecer, não acumulamos apenas rugas e experiências. Reforçamos uma ideia fixa de como o mundo deveria ser. E os jovens, com o seu ímpeto de renovação, vocabulário novo, códigos próprios e rebeldia natural, vêm romper com essas certezas.

O ser humano tende também a resistir à mudança. À medida que as gerações avançam no tempo, têm mais dificuldade em adaptar-se às novas tecnologias, comportamentos e formas de pensar. O que é diferente parece estranho ou, mesmo, ameaçador. Isso gera uma comparação inconsciente com o antes e o agora. O que eu conhecia era mais “certo”, mais “puro”, mais “real”.

Há ainda um fator psicológico importante. O tempo da juventude costuma ser associado à liberdade, ao crescimento e à construção da identidade. Quando as pessoas olham para trás, não estão apenas a recordar a sua época. Relembram também quem foram. Criticar o presente é, muitas vezes, uma forma de afirmar que aquele “eu” jovem tinha mais valor ou vivia com mais intensidade.

Convém lembrar que cada geração enfrenta os seus próprios desafios e constrói conquistas específicas. O que hoje é criticado como “decadência” ou “futilidade” poderá, no futuro, ser lembrado com a mesma saudade pelas gerações seguintes.

Seria útil cogitar que o mundo não pertence a uma geração. Aos jovens cabe errar com ousadia. Aos mais velhos, ensinar com humildade e, sobretudo, não esquecer como foram.

Como professora que sou, tento manter presente a época em que ocupava as cadeiras dos alunos. Não esqueço as dificuldades que tive, o mal-estar que muitas situações, no contexto escolar, provocaram-me, nem os métodos de ensino. Aliás, decidi abraçar esta profissão por influência de dois professores: um pelo exemplo positivo e outro por uma prática absolutamente desadequada. Este era jovem, o que mostra que a maturidade não tem sempre relação com a idade. O que é, no entanto, indispensável, é o respeito mútuo e é esse, infelizmente, tantas vezes falta, de parte a parte.

Os conflitos geracionais parecem não ter solução, pelo que serão sempre atuais em qualquer época. Lembremos o que escreveu Ullman Samuel: “A juventude não é um tempo da vida, é um estado de espírito.”[iv] E esse estado de espírito pode sobreviver em qualquer idade desde que não se fechem os olhos ao novo.


[i] Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, Companhia das Letras (tradução de Paulo César de Souza), página 36.

[ii] José Saramago, in Discurso de Aceitação do Prémio Nobel de Literatura em 1998.

[iii] Albert Camus in Discurso de Aceitação do Prémio Nobel de Literatura em 1957.

[iv] Ullman Samuel, Youth: A Poem, publicado entre 1918 – 1920.

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