As Pontes de Madison County

Uma família de agricultores, os que se ligam à terra e dela retiram o sustento, nada tem de interessante ou particular. Vivem com base nas suas conquistas e progressos. O esforço é grande para se ser o melhor. O fim de semana da prova da aposta está mesmo a chegar e Francesca, sem o saber, decide não ir e tudo muda na sua vida.

Para ela a família é a sublimação, o estado em que se encontra, mas no íntimo há uma lacuna a ser preenchida. Quer tempo para si e quando o tem acaba por se descobrir e saber quem afinal é. Esse fim de semana será o ponto de viragem da sua vida e do seu sentir.

Um homem surge à sua porta a pedir indicações. Aquele é uma zona salpicada de pontes de madeira que ninguém quer saber, mas ele, o fotógrafo, encontra os detalhes que escapam aos olhos de muitos. Ali a vida é dura e o campo não permite a beleza das pequenas coisas.

O que salta à vista é que os dois estão em sintonia, numa espera de que nem sabiam existir e que agora se concretiza com o seu encontro. O amor nasce logo ali, salta-lhes para os braços como se o tivessem trabalhado. O amor não se sustenta sem admiração mútua e estes dias mostram um Robert e ainda uma Francesca que se descobrem e desnudam.

Ele viu uma mulher forte, linda, sensual, madura, companheira, cúmplice, mas frustrada pela escolha que fez na vida, o que não lhe retira a intensidade de se deixar deslumbrar com o mundo. As almas gémeas são as que conseguem comunicar e estas completam-se.

Ela representa a simplicidade, aquilo que ele precisa, o amor puro, amor sem máscaras e com toda a subtileza do lugar, da situação, do cheiro que se lhe entranha por ser misterioso e agradável. Ela era a beleza das pontes cobertas de madeira, a rusticidade da perfeição.

Ela vê nele a pessoa que quis ser sem o conseguir, livre, sem amarras, solta pelo mundo tal como o vento e sem destino certo. Procurava novas paisagens e novas experiências. Um espírito livre.

O filme começa com o regresso a casa dos filhos, pela morte da mãe. Perante uma explicação do advogado, com o desejo da cremação da mãe e a entrega de uma caixa com vários objectos, entre eles um diário, estes sentem-se bem desconfortáveis e em desacordo.

O pai havia comprado dois jazigos para juntar o casal, mas a última vontade da mãe faz ver que nem tudo tem um ritmo natural e flui com certeza. Há a revolta da falta de respeito para com o pai, que a mãe cuidou até ao fim, até que o que parecia normal passa a bem diferente.

O diário irá mudar a vida dos filhos e a visão que estes terão sobre a sua mãe, a mulher que nunca viram como ser humano inteiro, mas, sim, como cuidadora e nada mais. A misteriosa história de amor, um segredo muito bem guardado, terá o condão de os acordar da letargia das suas vidas.

Uma ponte é o que liga as margens, tal como um rio é a vida e terá que ser ultrapassado para ir desembocar no grande mar do cosmos. Ponte é sinónimo de juntar e não se afastar. Juntar as margens é estar pronto para o amor, a paixão e a entrega. Amar é conhecer e querer ainda mais.

Falam de comboios, de caminhos, de tudo e de nada e apaixonam-se de forma despudorada sentido que foram talhados um para o outro. Francesca já tinha abandonado as expectativas sobre os sonhos, mas ele reacende a chama do querer, a paixão de se estar.

Ela precisava de ser percebida e ele de ser amado. Naqueles dias tudo se conjugou na perfeição. Dá-se a transformação final e a borboleta inicia o seu voo e surge como uma mulher completa, sem máscara de usar todos os dias.

Ele descobre o significado de todas as pequenas pegadas das praias desertas por onde passou e todas as cargas secretas dos navios que viu e acenou. O crepúsculo fazia agora todo o sentido e o menino que morava em si, o que se escondia, entrega-se à mulher que o abraça.

O diálogo final é emocionante e profundo. É impossível não se sentir esta tão rica emoção. Então percebe-se que ficarão ligados para sempre, mas aquele amor não terá, jamais, comparação. Foram somente quatro dias, mas afinal deram uma vida inteira.

O adultério feminino terá alguma importância aqui? O que será do amor se não for alimentado com pequenas fagulhas de fugas e de escapes? Os acasos da vida são imprevisíveis e o amor, essa fornalha descontrolada, arde sem nunca se conseguir ver. Arde e queima até doer.

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