Surpresa com a leitura deste livro, no qual reparei por acaso na Livros & Companhia, no centro da Marinha Grande, advém de a escrita, simples e quase expurgada de emoção, ser tão poderosa ao mesmo tempo.
A história dramática da vida de Tove Ditlevsen não deixa de ser, apesar de tudo, uma história banal, ainda que triste. No entanto, é tão forte e diz-nos tanto (digo banal no sentido em que uma vida de dependências, pobreza ou infelicidade amorosa não é incomum; contudo, não é banal no sentido de ser uma vida profundamente infeliz).
Uma aparente frieza da escrita reflecte um certo arrefecimento no modo de vida, como se as consequências funestas das nossas acções não trouxessem responsabilidades. O adultério, a mentira ou o vício, tudo é contado num estado de normalidade e quase amoralidade que me desconcertou. A moralidade, ou melhor, os dilemas e problemas de consciência, construía-os eu deste lado, como leitor, e dessa forma fui sentindo a força deste livro.
Talvez a indiferença que senti nesta escrita seja o reflexo que atribuímos às sociedades nórdicas. Ou talvez eu esteja sugestionado. A verdade é que Tove Ditlevsen passou por muito, de abortos a relações destrutivas, de uma família com as suas peculiaridades ao vício em fármacos. A fuga para a frente, mais do que um factor geográfico ou um devaneio de artista, talvez fosse a sua tentativa de escapar a uma vida madrasta.
Nós, latinos (e norte-americanos), estamos acostumados a outra forma de relatar os factos e expressar ou deles extrair sentimentos, com mais cor, vida ou emoção. Testemunhar, por esta leitura, uma outra forma de vida, como se os factos extraordinários devessem ser aceites com estoicismo (não no sentido pateta de uma aceitação de tudo com um sorriso, mas no sentido mais amorfo e indiferente), tão complexa e tão perceptível ao mesmo tempo, só nos enriquece e mostra como a vida é feita de muitas coisas.
Por fim, a veia artística e aquele impulso maior do que a vida para escrever, apesar de todas as dificuldades, contra todas elas ou por causa delas, mas escrever, poesia e prosa, resistir às opiniões de quem pouca bagagem tinha para entender o que Ditlevsen escrevia ou às rejeições das editoras. Ela não se alonga no processo criativo, fontes de inspiração ou no que apanha da sua realidade para transpor para o papel, mas expõe a ânsia por escrever, como uma força incontrolável que irrompe por uma vida caótica, rasgando-a para lhe abrir pedacinhos de felicidade.
Acompanhamos o crescimento de uma mulher, da infância à meia-idade. E a escrita dela consegue o prodígio de o notarmos e nos esquecermos dessa evolução ao longo da leitura.
Muito, mas muito bom.
[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico.]