PolíticaPortugal

Era uma vez uma escrutinadora…

No passado dia 6 de Outubro, como sabem, ocorreram as Eleições Legislativas.

Embora tenha quase sempre participado como votante, este ano fui convidada a participar nas Mesas de Voto, ainda que não tenha qualquer ligação partidária. Resolvi aceitar e, em boa hora o fiz, apesar do dia ter sido cansativo, pela atenção e extenso horário, mas, pelo que me foi dado a ver, o que é sempre uma actividade que pratico com alguma frequência e que me faz aprender muitíssimo.

Fui nomeada escrutinadora, que não é senão aquela figura que ladeia o Presidente de Mesa e, ao repto do nome “António Miquelino dos Santos Asdrúbal”, se lança numa corrida pelo mesmo na cópia do caderno eleitoral, para dar baixa do acto de votação. Esta situação repetiu-se das 8 às 19, com pequenos intervalos para descansar, revezando-mo-nos entre os 5 elementos que compõem a Mesa (Presidente, Vice-presidente, Secretário e 2 Escrutinadores).

Tudo para mim foi novidade, desde  a surpresa de haver gente à espera na rua para votar e, que, ao abrir das portas, às 8 da manhã, entrou desenfreada, até ao facto de a urna ter que ficar em aberto até chegar o primeiro votante, que testemunha que está vazia, e só depois de proceder ao fecho e colocação de lacre na mesma.

O que causou mais estranheza nos votantes foi o facto do cartão de eleitor já não ser tido em consideração, mas apenas o Cartão do Cidadão/Bilhete de Identidade/Passaporte ou Carta de Condução. Assim, o critério de distribuição pelas mesas era o alfabético, deixando de ser o critério de antiguidade na freguesia, transcrito no número de eleitor.

Como é certo e sabido, o Homem é um animal de hábitos. A Mesa 1, onde me encontrava, continha os cadernos de A a C, no entanto, a fila era a mais extensa, não só por uma questão de elevada frequência destas letras (Anas, Antónios, Carlos), mas porque os mais antigos achavam que como sempre votaram nessa mesa, assim seria eternamente. Só que não, como dizem os putos, pelo que ficavam na fila, seguros dessa presunção, e quando chegavam à mesa eram informados que não era ali, mas na 4 ou 5, a que se seguiam comentários desanimados. Obviamente que a distribuição era pública e estava afixada, mas as pessoas nem vêem e avançam conforme as expectativas.

Esta situação gerou o facto de os casais que habitualmente votavam na mesma mesa, deixaram de o fazer,  a menos que a correspondência alfabética o permitisse. Isto foi sentido com desagrado, especialmente pelos mais idosos, que não só deixaram de ter em quem se apoiar, como chegou a haver reclamações ao nível da ironia, como as eleições estarem a promover os divórcios, separando os seres amados. Contudo, o mais engraçado foram os casais controladores que, fazendo questão de ver o voto do parceiro conjugal, se abeiravam do canto de voto, como se a certificar da opção do outro, pelo que foram convidados pela Mesa a dar espaço (ao menos neste momento de consciência). Ou aquele que, apoiando-se na falta de equilíbrio do outro (pai/mãe/sogros), se usavam da mesma artimanha. Ironicamente, aqueles que de facto tinham limitações físicas, como os utentes em  cadeiras de rodas,  procuravam ser mais independentes e resolver por si o assunto sem penduras.

Havia também aqueles que demoravam muito tempo no local do voto. Parece-me que seria bem mais do que a ler, demoradamente, as extensas opções naquela folha fora da medida, um A4 esticado, com inúmeros partidos. Normalmente saiam daí dados criativos, como cruzes em todos e acréscimo de algumas na onda dos clubes futebolísticos, ou desenhos, ou direccionamento de palavrões dedicados às mãezinhas de alguns. No final, em plena contagem, pudemos constatar a criatividade ou a falta dela nas opções alternativas.

Tivemos uma reclamação, porque não encontrámos um nome de difícil escrita, e a senhora não poupou a nossa ignorância. Se fosse Maria… Apareceram pessoas com nomes de marcas comerciais, o que tornou a conversa bem mais ligeira. Alguns estrangeiros compreensivos, após o engasgar do primeiro nome pelo Presidente, simpaticamente liam os restantes nomes, de modo cooperante e cordial.

Uma pergunta frequente saía da boca dos votantes: tem havido adesão? Os números não mentem e, no fim do dia, apenas cerca de 55% dos eleitores da mesa tinha votado. Um pouco como os pais que se preocupam e vão às reuniões da escola, que são aqueles que de facto menos razões têm para comparecer, estas pessoas cumpridoras questionavam-se sobre a abstenção dos faltosos. E esses, como os pais dos miúdos mais problemáticos, não só não comparecem como não vêem interesse nisso.

É também engraçado ver o comportamento dos Presidentes de Mesa. Uns, obcecados com as regras, rígidos e sempre com receio dos outros pares, que os observam em busca de uma falha que lhes possa denegrir a imagem política exemplar. Outros, bem mais inteligentes, fazem do humor e do companheirismo a forma correcta de esclarecer e acalmar um eleitor mais difícil. De facto, na política, como na vida, a atitude é tudo.

Confesso que extrai algumas informações para futuros personagens, tal a riqueza humana que ali se apresentou naquela ocasião. Quando houver mais eleições, chamem-me outra vez. Preciso de acabar alguns textos.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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