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A narrativa do bom, do mau e dos outros numa vitória com sabor amargo

O PàF ganhou as eleições. Muitos não acreditavam. Outros tantos já o anteviam. Venceram. É indiscutível. Mas a vitória pode ter sido amarga. A coligação PàF perdeu um grande número de mandatos, perdeu a maioria. Por isso, apesar de vencedores, saíram derrotados. O objectivo de uma “maioria expressiva” não foi conseguido. A possibilidade de um governo minoritário e, consequentemente, instável, torna-se cada vez mais provável.

PàF
Pedro Passos Coelho (à esquerda) e Paulo Portas (à direita) reclamam vitória esclarecedora

Há várias ilações a retirar deste resultado eleitoral.

Primeiro, estamos na ressaca de um programa de quatros anos de austeridade que, objetivamente, foi reprovado. Apesar de a coligação ter ganho, o eleitorado português foi peremptório na sua vontade em parar rapidamente com a austeridade, pelo menos nos níveis até agora impostos.

Segundo, em termos mais partidários, a vitória do PSD/CDS (PàF) pode representar o início da construção de um novo bloco, mas este de direita. Podemos estar a assistir a um processo de fusão entre PSD e CDS. É o que antevejo.

Do outro lado do espectro político assistimos a uma luta de camaradas pelo mesmo eleitorado. O renascimento do Bloco de Esquerda pode resultar, a médio-longo prazo, no fim do PCP enquanto partido com relativa relevância parlamentar – o Bloco roubou parte do eleitorado de protesto ao PCP e, no Alentejo (terra forte do PCP), o voto foi bastante dispersado entre PCP, Bloco e PS. Sem este eleitorado, os comunistas não subsistem. O Bloco foi tão eficaz que secou quase todos os partidos à sua volta: o único que contrariou a tendência de massacre dos partidos extra-parlamentares de esquerda foi o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN). Parabéns ao PAN pela entrada na Assembleia.

Terceiro, este cenário poderá ser apenas o início de uma longa travessia do deserto para António Costa. Para além da digestão da derrota (que porá o PS fora do governo mais algum tempo), terá que enfrentar, nos próximos dias, várias noites de facas longas. Veremos se resiste.

Mas esta é a santa missa das eleições. Quem ganha, reina. Quem perde, tem que sofrer consequências. Mas deixemo-nos das questões pós-eleitorais. Para entender estes resultados temos de, necessariamente, fazer uma revista da campanha.

Independentemente das retóricas que estejamos a falar, há sempre aquela vontadezinha de classificar os dois principais candidatos a primeiro-ministro como o bom e o mau, dependendo de que lado estamos. Os outros vêm por arrasto.

E a nossa campanha foi isto: o Passos e o Costa, o bom e o mau (e vice-versa) a que depois se foram juntando os outros, nomeadamente o Jerónimo e a Catarina.

Nos últimos anos, ou melhor, desde que há campanhas eleitorais a sério (pós-25 de Abril), que o clima é sempre de festa e guerra em simultâneo. Nunca é de esclarecimento. Desta vez, a escolha foi entre a estabilidade e a confiança. É quase uma escolha semântica.

Os programas eleitorais já não interessam. Digamos que em Portugal nunca interessaram. O que importa são as narrativas. A narrativa do bom, a narrativa do mau, a narrativa dos outros (se bem que esta última não costuma interessar muito aos apoiantes do bom e do mau).

O voto pode ser pouco mas igual para todos, como dizia Rui Zink há uns dias. Mas quando os media adotam uma narrativa constantemente favorável a um grupo político, seja com a publicação de sondagens diárias, seja pelo ângulo em que nos transmitem as notícias, seja pelos opinadores disfarçados de ‘comentadeiros,’ não sei se o voto será igual para todos, pelo menos em termos de esclarecimento eficaz. A política não é uma guerra de spin. Ou, pelo menos, não o deveria ser. Esclarecer as pessoas em vez de vender candidatos deve ser o princípio fundacional da política.

E o voto não deve ser desrespeitado. Falando do voto, estes dias surgiu, numa conversa com um amigo meu, a discussão sobre a injustiça do nosso sistema eleitoral. Sim, injustiça. Isto de círculos regionais/distritais é mesmo iníquo.

Fizemos um exercício hipotético. Suponhamos que queríamos votar na Joana Amaral Dias ou no Marinho e Pinto. Tentamos encontrar novos sistemas que nos permitissem votar nestes candidatos. Falamos, então, sobre a possibilidade da existência de um circulo nacional único, mas com compensações regionais (para evitar que os candidatos de uma lista nacional fossem todos do mesmo local). Seria melhor representativo da pluralidade das sociedades modernas e iria permitir votar no cabeça de lista partidário que desejássemos.

Isso é que era. O meu voto ia já para a Joana Amaral Dias! Brincadeiras à parte. Seria um sistema mais justo. Olhemos para os Países Baixos. O número de votos equivale rigorosamente ao número de deputados na Assembleia, tornando o Staten-Generaal num dos parlamentos mais diversos do mundo. Não há votos desperdiçados. Se assim fosse cá em Portugal, o meu voto em Braga valeria o mesmo que o voto de uma outra pessoa em qualquer outro local do país.

O período eleitoral acabou. Finalmente. Os personagens manter-se-ão, mas as narrativas vão, na medida do necessário, transformar-se. Vamos ter negociações entre o bom e o mau para que haja governo estável. Vamos ter os outros a rejeitar essa hipótese. O habitual, digamos.

Porém, isto é o pão nosso de cada dia da nossa vida política coletiva. Por enquanto, deixemo-nos destas narrativas. Hoje a República faz 105 anos. Vamos festejá-la.

Viva a República!

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Jorge Nicolau Magalhães

Gosto de ler, ler e ler. Escrever... desenrasco-me. Gosto de política, muito mesmo. Não sou utópico e, por isso, mudar o mundo não é comigo. Contem comigo apenas para o consertar aos poucos. Sou apenas observador e crítico, de forma compulsiva.

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