Guardamos o melhor para os outros

Quem não se lembra dos avós ou dos pais, de terem o serviço de louça chinesa para as visitas e o faqueiro guardado religiosamente na caixa? Eu sou do tempo em que sabia exatamente que, quando vinham visitas, saiam do armário os melhores pratos e os melhores copos – mas só para as visitas, porque para os outros, os do dia-a-dia, só existiam os esquinados.

Ou seja, assim em sentido figurado, mas por outro lado bem personificado, para nós serve qualquer coisa, mas para os outros só pode ser o melhor. 

Obviamente que antigamente havia muito a questão de “mostrar” alguma posição social, através da posse de um serviço chinês, um faqueiro ou um serviço de copos de cristal. Por isso é que o melhor ficava guardado para os outros.

Outro vértice deste triângulo, o do que guardamos para os outros, para um dia, para um momento, são os vestidos e fatos para usarmos “um dia”, para uma festa ou para uma ocasião. Confesso que tenho poucos vestidos para estas ocasiões e, quando decido correr o risco, muitas vezes sucede que ouço frases como “vais para uma festa?” ou “mas que roupa é essa?

Tudo, porque vivemos numa sociedade que nos tenta a guardar o melhor, o mais bonito para um dia. E se esse dia não chegar? Posso vestir-me com o meu melhor vestido, o mais bonito e impactante hoje? Posso? Ou é melhor mesmo guardá-lo para a hipótese mórbida, mas real, de ser o senhor da funerária a escolher o nosso melhor vestido para o levarmos para debaixo da terra?

Parênteses aqui para quem tem filhos (e para quem não tem e, às vezes, também o faz). Desde que tenho uma filha que me lembro bem desta memória de infância: lá em casa, quando eram dois a comer, as duas pernas do frango assado eram para o meu pai. A minha mãe abdicava sempre e dizia que não gostava muito, mas confesso que sempre acreditei que guardava o melhor para os outros, como ditavam os bons costumes.

Quando passámos a ser três a comer, o meu pai cedia uma das “pernas” à minha irmã e, quando eu apareci, era uma para cada uma. O meu pai abdicava por completo da sua “perna” de frango. Aliás, quando me dei conta, só eu comia as duas, porque a minha irmã as cedeu para mim. Em suma, seja em que situação temos tendência em guardar  sempre o melhor para os outros.

Já pensaram que devíamos guardar o melhor para nós? Porque temos de ter no armário os melhores copos para as visitas, se nós, como habitantes a tempo inteiro da nossa casa, é que deveriamos usar a loiça chinesa? E se partirmos alguma coisa? Partimos, mas, ao menos, usufruímos disso.

Amanhã, quando escolheres o que vestir, tira do armário aquela “roupa” para aquele dia especial, porque, caso ainda não tenhas dado conta, o dia é hoje!

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Mais (ou menos) Habitação

Next Post

Que sonho é este de Liberdade?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Saudade

Existe uma ideia generalizada de que esta palavra só existe na língua portuguesa. Assim sendo não consegue…

No Tempo Certo

Os tempos que vivemos são, para muitos, de incerteza, de medo, de dúvida, de pessimismo, com vaticínios…

Fake News

A dúvida é o princípio da sabedoria. – Aristóteles O planeta enfrenta a dura realidade de perceber que a…