“…e é como se nunca tivessem partido”

Num destes últimos fins-de-semana participei num almoço muito caricato: nada mais nada menos do que um encontro de alunos e professores do colégio Coopescola, sito na Penha de França, Lisboa, onde andei desde o  infantário até ao 9º ano.

Após todos estes anos (o 9º ano foi em 1990), não só nos mantemos em contacto, como permanecemos amigos. Posso até dizer que os meus melhores amigos surgiram desse grupo e tenho, com a minha melhor amiga, um contacto quase diário. Raro, sim, tenho noção, o que torna tudo isto ainda mais especial.

Começamos a fazer estes encontros alargados quando tínhamos 30 anos, ou seja, 15 anos após a saída do colégio. Antes, estivemos mais próximos com um ou outro, e ocupados com as universidades, namoros, casas e filhos. Mas a saudade surgiu e partindo de um pequeno grupo mais próximo, iniciámos contactos no sentido de promover um encontro abrangente.

E aconteceu. E aí soubemos das opções de cada um, e se alguns cumpriram aquilo que tínhamos previsto, outros foram uma total revelação nos caminhos que tomaram. Foi bom reencontrar-nos, quase todos perfeitamente reconhecíveis, sendo que as mulheres se mantinham mais iguais a elas próprias, facto destacado pelos homens, que se apresentaram mais grisalhos, barrigudos ou de barba, mas ainda assim em excelente estado de conservação. Felizmente nada que se compare aos encontros dos filmes americanos….em que impera a competição, a humilhação e tal ahahah

Nem sempre vamos todos, nem sempre podemos ir, mas saímos dum encontro com a promessa de um próximo, para que nos mantenhamos regularmente em contacto. O mais engraçado é que nem todos conhecem todos, ou não conheciam. Uns saíram na primária, outros entraram no ciclo, por exemplo. Apenas aqueles, como eu, que permaneceram do início ao fim, conhecem toda a gente. Ainda assim, convivemos todos. Foram sendo efetuados outros tantos encontros, e aos poucos fomos introduzindo alguns professores.

E perdoem-me os alérgicos a clichés, mas não há outra forma de o dizer: o tempo não apagou nem a amizade nem as lembranças de tantas e tantas histórias que vivemos nessas idades. Afinal, nesses anos, passámos de crianças pequenas a jovens adolescentes, com tudo o que isso implica…das primeiras rebeldias aos primeiros amores, da descoberta de si e do outro, das liberdades crescentes. Crescemos juntos. E se a determinada altura divergimos para construir as nossas vidas, o reencontro é sempre feliz.

A amizade permanece intocável, sem cobranças, porque afinal todos nós alargámos círculos de amizade e temos a nossa família e outros interesses. Mas a empatia permanece, e é com sorrisos doces que recordamos namoricos e estórias que nos fazem rir ou histórias mais duras que apelaram à nossa empatia e união.

Neste último encontro, realizado no Parque das Nações, tivemos 3 professoras connosco, sendo que uma delas foi a nossa educadora de infância. É curioso como o tempo nivelou a autoridade destas sobre nós. Hoje, tantos anos volvidos, não somos mais os miúdos a quem elas ensinaram, mas somos todos adultos. E se, naturalmente, a idade ainda nos demarca, porque os professores com quem mantemos contacto se situam entre os 68 e os 91 anos, há uma partilha de memórias que dissolve essas diferenças, afinal vivemos, ainda que com perspectivas diferentes, as mesmas histórias.

O colégio era, ao tempo, dirigido por uma diretora/professora bastante convencional e de autoridade marcada, o que conduzia, em plenos anos 80 e 90,  a determinadas regras disciplinares que nos surgiam como incompreensíveis e desajustadas. Algumas delas permanecem ainda hoje com essa conotação, mesmo considerando a época.  E neste compartilhar, vamos descobrindo que afinal, como uma delas referiu, todos nós, em períodos e escolas diferentes, vivemos alguma rebeldia que o espírito jovem patrocinava.

Esse aplanar das diferenças entre uns e outros permitiu-nos também conhecê-los melhor como pessoas, naquilo que são para além da profissão que desempenham / desempenharam. Falamos sem reserva das nossas famílias, profissões, interesses. Com a liberdade que o tempo nos trouxe, contamos histórias de partidas que lhes fizemos, ou das alcunhas que lhes dávamos, e elas contaram, na perspectiva delas, alguns dos momentos então vividos em aula. Encontramos pontos comuns nas nossas vivências, sendo que uma delas é, como eu, uma acérrima apoiante da causa animal. É bom enriquecer o conceito estrito de professor com um pouco da sua forma de ser.

Estas pessoas, alunos e professores, são um pouco de nós. A tempos, vamos lembrando aquilo que vivemos, às vezes basta uma palavra, um olhar cúmplice, um risinho maroto. Despedimo-nos com um ate já, seguros da continuidade destes felizes encontros.

“Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda; desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram.”

António Lobo Antunes, in “Visão”

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