Loucura mesmo é ter medo do que os outros vão pensar de nós

Numa sociedade padronizada sair da caixa pode custar um rótulo bem caro. E uma grande maioria não está disposta a pagar um preço elevado para ser diferente, para esquecer o pensamento de grupo e viver sob o seu próprio comando, embora seja certo que, como ser sociais que somos, e para que consigamos viver numa salutar vivência e convivência, há que viver de acordo com um conjunto de padrões sociais e de regras de conduta, de modo a que, no meio do caos, a harmonia, a aceitação e o respeito entre uns e outros sejam os condutores da nossa coexistência.

A palavra padrão tanto pode ser sinónimo de modelo ou paradigma como de, no sentido figurado, deslustre ou aquilo que mancha a reputação. E, por vezes, é mais confortável à sociedade gastar este último conceito para apontar o dedo a quem, mesmo sem retirar a liberdade aos outros, decide não fazer parte do rebanho, saindo do padrão monocromático, para descobrir que há mais cores com tonalidades infinitas no pantone da vida; para explorar e [vi]ver as várias possibilidades que uma mesma realidade pode proporcionar… Estes últimos são, por vezes e por isso, rotulados de loucos. E se assim é, então que se acrescente ao rótulo a palavra “saudável”. Ou seja, louco saudável ou bom louco. Vai dar ao mesmo….

O bom louco é um responsável consequente, que assume os resultados dos seus actos, sem medo do que os outros [os que não interessam] pensam. Um louco, dos bons, é um provocador de acontecimentos e, por onde passa, deixa um rasto de desafios com um sabor especial a atrevimento, capaz de estragar os planos aos pseudo-certinhos, aos controladores sem vida própria, que se contentam com o ramerrame do dia-a-dia, de preferência, a complicar a vida aos outros, e com medo…

Desengane-se quem considera o louco um irresponsável. O louco saudável abre horizontes, quebra a monotonia e faz pensar. Cai na rua e ri de si próprio. Dá um assobio dobrado para chamar um amigo só para o poder abraçar. Adora parar ao Sol para absorver a energia do calor da vida com um sorriso de orelha a orelha e fica feliz com a felicidade dos outros. E faz pausas no trabalho… Sim, porque estar sempre de enxada na mão não é sinónimo de responsabilidade, mas sim de falta de inteligência de quem não está receptivo a arejar as ideias e a recarregar energias para pôr mãos à obra em busca da verdadeira produtividade e da loucura que é trabalhar feliz. O bom louco é nada mais do que um consciente medidor das consequências dos seus actos, abraçando sem receios os resultados das suas loucuras, sempre pronto para arregaçar as mangas como resposta às intempéries. É um líder e um inspirador, que influencia positivamente todos em seu redor, oferecendo-lhes felicidade e valor.

O bom louco é livre, conscientemente livre. Ao viver sem medo, agitando as hostes, está a desafiar a vida em busca de novas contrapartidas, superando-se e provocando os menos atrevidos na elevação dos seus voos. Ser louco dá trabalho, pois implica ter criatividade para dar novas cores aos dias e explorar as várias versões de si mesmo numa busca incessante pela loucura da alegria de viver. O bom louco é inteligente e torna-se irritante até, porque obriga o medíocre a encontrar formas de se enterrar [e esconder] na sua pequenez.

Cá para mim, nesta perspectiva, ser louco é ser normal. Absolutamente normal. Os verdadeiros loucos são os que não acrescentam nada de bom nos outros e desrespeitam a sua liberdade. Os verdadeiros loucos são inconsequentes. Os verdadeiros loucos têm medo do que os outros vão pensar de si. Os verdadeiros loucos acham que ser feliz é ver infelicidade nos outros  Estes, sim, é que são loucos, e perigosos… Distância deles!

Viva a loucura de ser feliz!

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