The Fabelmans

Finalmente um grande filme!

Talvez fosse a sala a propiciar, com o ambiente de bafio saboroso de outro tempo e o feito heróico de ser a única sala de projecção nos concelhos de Cascais, Sintra e Oeiras em actividade sem se encontrar dentro de um centro comercial, paredes-meias com donuts e hambúrgueres, carrinhos de supermercado e flashs agressores, talvez fosse essa bolha que protege a sala do Atlântida Cine, junto à estação de Carcavelos, a refogar a impressão com que de lá saio sempre que vamos ver um filme, e em particular, em apurar a impressão que The Fabelmans deixou em mim.

O Atlântida Cine situa-se no piso subterrâneo de um centro comercial. Mas é um espaço como não há mais, perdido no passado, parado na década de oitenta e que ainda vai resistindo pela particularidade de algumas lojas, umas demasiado especializadas, outras servindo como a última fronteira capaz de satisfazer as necessidades e os bolsos dos emigrantes que dão no duro (não são os que dão cabo do preço das casas). É um espaço único no panorama cinéfilo da grande Lisboa (e eu diria que do país), sobretudo para quem tem no coração o ritual de ir ao cinema, sem a poluição dos grandes espaços. Pelo menos enquanto José Carlos Carvalho se mantiver â frente do Atlântida Cine.

Talvez por isso eu já partisse sugestionado quando a música ambiente calou, as luzes baixaram e os trailers das próximas estreias encheram o ecrã (ali não há publicidade). The Fabelmans arrancou lentamente, custando a raptar-me ao sono para onde a idade agora invariavelmente me empurra sempre que começo a espreitar algo na TV ou no grande ecrã, e por momentos, levava o filme uma meia hora (demora duas horas e meia), julguei que fosse cair naquela nostalgia autobiográfica sem conteúdo em que os adereços tomam conta da história para a fazer desaparecer, sob cenários, vestuários e recriação de época irrepreensíveis. Mas não. Ainda que The Fabelmans trate todos esses ingredientes na perfeição, tem a suportar uma grande história, duas magníficas interpretações – Paul Dano e Michelle Williams (sobretudo esta!) – e uma aparição brilhante de Judd Hirsch, tal como uma realização magistral de Spielberg. Os planos mudam tudo neste filme, e essa arte não estará decerto desligada de ele estar a contar a sua própria história.

Enveredando por uma linguagem mais hermética que raras vezes utilizo (por não saber nem me sentir muito confortável com ela), neste filme convivem a verticalidade da história (presente na esmagadora maioria dos filmes que nos chegam) com a sua horizontalidade, esta composta por uma sobreposição de planos que vão cortando o desenrolar dos acontecimentos às fatias, mostrando-nos a profundidade dos agentes, os seus fantasmas e motivações, tudo o que concorre para fora do tempo linear que nos transporta do passado para o futuro, levando-nos a pensar em tudo o que estamos a ver e a sentir em nós uma obra mais robusta, completa e tocante.

Voltando à linguagem corrente, The Fablemans é uma belíssima homenagem à actividade criadora e a uma vertente tantas vezes desprezada por quem se dedica a filmar, compor, escrever, pintar ou esculpir: a sobrevalorização do papel da inspiração por oposição ao respeito a tudo o que trazemos connosco. No filme, o jovem sonhador e aspirante a cineasta Jammy Fabelman não é movido propriamente por momentos inspiradores mais ou menos metafísicos, como se dos insights saíssem obras primas, mas sim por deixar fluir os acontecimentos com que a vida o vai presenteando, respeitando-os, ainda que mostrando os ângulos que melhor reflectem o seu ponto de vista. Esta desmistificação da descoberta de uma paixão, de que não necessitamos de criar tudo de novo a partir do nada para sermos brilhantes, mas sim aproveitar os acontecimentos que nos marcam e deixá-los trabalhar em nós, de modo a conseguirmos dominá-los aqui e ali, deixando-os à solta em tudo o resto, é uma dos aspectos mais bem conseguidos do filme.

De volta à verticalidade, tudo isto concorre para nos ir revelando o crescimento de um rapaz numa família que se vai tornando disfuncional, através de uma propensão incontrolável para registar as imagens que vai guardando, lutando por encontrar o seu lugar entre a ingenuidade e dedicação ao trabalho do pai, e o sonho falhado e derradeira réstia de esperança da mãe. Com o cinema aprende os planos da vida que devem constar no filme e aqueles que, devido à observação sob uma lente mais cuidada, devem ser postos de lado: é Sammy a crescer amando a Arte.

The Fabelmans é um filme brilhante, talvez o melhor que vi de Spielberg (e não tenho visto muitos, na verdade) desde O Resgate do Soldado Ryan. Não creio que assim venha a ser considerado por muitos, pois não só estas ramificações criativo-familiares não nos tocam da mesma forma, como a maioria dos espectadores do planeta não vai ter o privilégio (e a audácia) de o ver numa das duas salas do Atlântida Cine.

PS: O encontro final do jovem Sammy com o mítico realizador vai muito para além do simbólico.

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