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Crónicas

Roupas infantis: o drama, a tragédia, o horror!

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A menina tinha uns 4,5 anos. Na sua gaveta de roupa interior, além das óbvias cuequinhas e meias, algumas das quais com bonecos de inspiração infantil, havia também um saiote e uma combinação interior.

Presumo que estão a pensar numa menina de tempos idos, de pele clara, corpete e uma saia armada, mas pasmem-se, isto aconteceu no fim dos anos 70, e o que é pior, comigo. Ainda hoje me pergunto – sem que o possa já perguntar a quem de direito (fui criada com os meus avós já falecidos), qual era a ideia, numa desajustada forma de vestir de uma criança. As transparências? Como? O contorno das formas? Ui, aos 5 anos, que formas tinha eu? Não sei, mas se na altura já me sentia um E.T, filme que viria a estrear um pouco depois, hoje a desadequação junta-se à incompreensão total. Agora há lingerie – para adultos – que se destinam a melhorar o cair da roupa exterior, corrigir a postura, ou afinar a silhueta, mas o tecido e a flexibilidade são outras. Não que eu use, porque de gordinha não passo, quando muito passaria a gordinha apertada.

Mas não sejam precipitados, o horror não acaba aqui. Na altura em que me apareceu o período, e à data, em fins dos anos 80, não havendo muitas opções de higiene menstrual, o espanto veio com aquilo que designaria de mini-fralda, larga e incómoda. E se pensam que não pode piorar, mais uma vez vos alerto que não sejam precipitados: havia uma coisa chamada cinta, essa peça altamente sexy que se destinava a evitar acidentes de fluxo. Melhor que isso só as cintas “calções de ciclista” duma determinada marca que fechou a fábrica em Portugal recentemente, que cheguei a ver em algumas senhoras. Conjuntamente com essas práticas, vieram os mitos de não poder lavar a cabeça, ou sentar em lugares frios, como muros ou pedras, ou mesmo comer gelados! Dogmas que não cumpri, talvez seja daí que advém o que sou hoje…

Recordo também, com algum desagrado, o facto de me terem posto a usar mala de senhora por essa altura. Porque uma mulherzinha tem que estar sempre preparada para as ditas surpresas mensais, tão irregulares nessa idade e porque – e esta mata-me- sendo alta, parecia mais velha e não ficava bem andar sem nada. Assim como não parecia bem eu, com 9 anos e 1,51m, andar nos baloiços… Hoje, quase nos 50, e com 1.71, continuo a andar de baloiço sempre que tenho oportunidade.

Claro que depois não houve muito mais a lamentar, que a idade impôs-se. No entanto, ainda me lembro duma saia de bombazine azul que adorava, mas que ficou com a bainha bem mais comprida do que pretendia: a questão conservadora e púdica aplicada a uma miúda de 12 anos. Danos colaterais de uma educação conservadora.

Lembrei-me disto no outro dia, quando na rádio perguntaram aos ouvintes quais eram os pavores infantis  vestimentares (como se diz agora na gíria dos conselheiros de imagem). E aí surgiu de tudo um pouco, as golas brancas que se abotoavam nas mais variadas blusas, as calças de flanela e as de bombazina, as collants grossas, os pullovers de losangos, a infindável sobreposição de malhas e casacos, e claro, as botas ortopédicas de alguns.

Nesse aspecto, tive também as minhas neuras: um vestido camiseiro azul, de um tecido que eu achava ser linho mas já não estou certa, que me picava, e umas calças de fazenda grossas que me causavam tanta comichão que cheguei a casa com as pernas negras de tanto coçar. E sempre odiei tudo aquilo que teimavam em pôr-me na cabeça, desde o velhinho passa-montanhas vermelho, em formação para burca, que só mostrava os olhos, e depois uma touca digna da Casa na Pradaria, azul escura, com cachecol ligado em vermelho e branco. Sofri mais com isso do que com as otites que poderia vir a ter…evidentemente que as crianças, até determinada idade, vestem o que lhe permitem. Mas podia ser em bom?!

Hoje os pais, avós, quem quer que crie as crianças, tem uma visão menos rígida sobre o tema, permitindo que as meninos e meninas já vão participando, dentro do aceitável, em termos de orçamento e extravagância, na escolha do que vestir. Eu própria tentei fazê-lo, respeitando a personalidade do meu filho e seus gostos. Em tempos fui comprar-lhe uns calções e dei-lhe a escolher entre uns verdes e uns azuis, mesmo preço. Fui criticada de imediato por um familiar mais velho, que prontamente me disse que não o devia fazer, que ele tinha é que aceitar o que eu determinasse, que a mãe era eu. Há coisas que nunca mudam… portanto eu obriguei o meu filho a escolher. E ele escolheu o azul.

Quando o meu miúdo nasceu, a enfermeira entrou no quarto e disse efusivamente: por favor mães, dispam essas crianças, não estamos no polo norte. E essa é uma tendência que as mães têm, de vestir demasiado as crianças. No outro dia li algo do género: “ Casacos são peças que as crianças vestem quando as mães têm frio”. E assim, eternamente, será.

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Sandra Ramos
Sandra Ramos, nascida em Lisboa em 1975, reside actualmente em Alverca do Ribatejo e tem um filho. Formada em Gestão de Empresas, com pós-graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, trabalha desde 2001 na Marinha Mercante, após uma breve passagem pelo Grupo Millenium BCP. Criou uma página / blog designada Escrevinhar/Sandra Ramos onde partilha alguma da sua escrita, eventos literários, livros e autores, alguns directos temáticos e onde promove desafios de escrita. Descobriu que não sabe viver sem escrever. É grata pelas experiências e pessoas que a escrita tem trazido à sua vida, e procura sempre novos estímulos. Anseia ter tempo para todos os projectos que a fariam viver em pleno.

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