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Um casal com um filho adolescente que vai sair de casa. Umas férias desejadas e planeadas há muito. A vontade de partilhar desejos e gostos e de tempo a não avançar. Tudo o que se pensa resulta de modo bem díspar. Douglas e Connie não são os mesmos que já foram e Albie, o filho que vai entrar na universidade é, sem o saber, o monstro que habita nos armários fechados.

Douglas é um cientista, um jovem que vive num laboratório e tem problemas de teor social. Sem tabela periódica a vida não faz sentido. É ansioso e assustado, mas tem consciência de que há uma luta interna. Connie é espampanante, a loura atraente e sexy que se interessa por ele. Uma relação um pouco gaga, mas que vai avançando. O casamento é celebrado com a gravidez de Connie em estado muito avançado. Sonhos e desejos que se unem, apesar das tantas diferenças.

Albie é a peça que os cola, o motor da união, o sol que destapa a nuvem de terem perdido uma filha pouco depois de nascer. Os planos adiam-se e a vida deixa de fazer sentido. Um filho pode ser tanto e, para ele, será assustador. Pais e filhos, ligações estranhas e irregulares. Albie é o artista da família, a continuidade, a veia que a mãe não quis arriscar. A mãe é mais suave e o pai mais realista. O filho anda perdido, normal e natural para uns tenros dezassete anos.

A viagem seria o culminar de sonhos, a visita a locais onde a cultura clássica soube entranhar-se durante séculos. Latinos, medidas, tempos, cidades, vozes, línguas, gastronomia e saudades de tempos de juventude que não podem ser repetidos. Douglas voltou ao tempo de excitação e de planos para que tudo fosse perfeito. Connie hesita e Albie não percebe a beleza nem o interesse daquela parceria. Contudo as coisas não são como parecem. Os pais e os filhos chocam-se pelos mais variados motivos.

Tudo começa sem sobressaltos e a descoberta vai ser fascinante. Douglas e Connie gastaram a energia que os havia ligado, mas aquele será o Verão para recordar mesmo que depois disso cada um siga o seu caminho. Contudo os dias mudam, tal como as pessoas e Albie decide que quer ficar sozinho. A mãe parece aceitar essa decisão com leveza. Já o pai encontra um obstáculo gigante nessa postura. Tudo se complica quando se separam e Douglas, um pai, procura desesperadamente o seu filho.

Itália é um país deslumbrante e a paixão solta-se em cada canto. Douglas fica no mesmo hotel da lua de mel e conhece uma recém separada que inicia uma nova vida. As aventuras estão à vista de todos, basta deixá-las entrar. Aqui são mais desventuras que se tornam hilariantes. Vários países e a visão da morte para trazer a lucidez sobre todos os temas. Quem está bem vivo assim quer continuar e a chama continua a arder.

Dias intensos e muito bem estruturados. Uma história apaixonante. Apenas seis episódios, mas que se tornam viciantes. Somos, sem o sentir, convidados a tomar parte da viagem dos três. Umas vezes somos o Albie, adolescente e errante, outras a Connie, a que se anulou e está muito cansada de assim ser e, mesmo sem admitir, o Douglas vive em nós. Um pai que procura o seu Nemo e se busca no mundo, mesmo que tardiamente, é um herói.

Cidades emblemáticas, locais de culto e museus, bem como algumas belas e deliciosas paisagens, acariciam Douglas, Connie e Albie, que se descobre e entende quem vive dentro de si. A cultura pode unir e a música é um veículo para a paz. Crescer e envelhecer acabam por ser o mesmo. O que muda é a intensidade da dor. Recomeçar é importante. É essencial.

Os quadros, cheios de enigmas e de histórias vividas ou fictícias, podem ser excelentes parceiros de viagem e ainda bons conselheiros. A National Gallery, poderosa testemunha, será a porta de entrada para novas e audaciosas saídas que se afiguram desafiadoras e vibrantes.

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