Olhar para a escrita com outros olhos

Há a tendência para abrir um livro, ouvir falar um escritor e pensar “quem me dera saber escrever”. Mas não sabemos todos escrever, mais ou menos desde a primária? Quem estabelece as regras do que é “bem escrito” ou “mal escrito”? Ainda mais importante: quem é que definiu que, para escrever, precisamos de ser bons?

Trabalho com as palavras há cerca de dez anos. Entre workshops e cursos (que lecionei e frequentei), a frase que mais me habituei a ouvir foi “eu não sei escrever”. Existe um endeusamento do ofício da escrita, uma tendência a colocar num pedestal a capacidade de nos relacionarmos com o outro através das palavras, que eu nunca fui (e provavelmente nunca serei) capaz de entender. O que estas pessoas (ou a maioria delas, pelo menos) descobrem ao final de algumas horas e muitos exercícios, é que escrever é divertido, é universal e é democrático.

Claro que não seremos todos Saramago nem Hemingway; tal como não seremos todos Picasso, Ronaldo, Meryl Streep ou qualquer outro nome sonante de qualquer categoria que queiram mencionar. Mas quem disse que a vida tem de ser uma corrida? Quem determinou que, mais importante que desfrutar, é conseguir chegar ao pódio? 

Uma história sobre trabalhar até aperfeiçoar

Em 2019, precisei de algo que me permitisse desligar o cérebro, uma atividade em que não precisasse de pensar. Se quiser dar-lhe um novo moderno, procurava o tão falado mindfulness. Como meditar não é para mim, escolhi o crochet, uma técnica que já me tinha sido ensinada pela minha avó e pela minha mãe.

O crochet não tem muito por onde errar: é composto por voltas e pontos, vamos tecendo os pontos em cada volta, a peça vai crescendo até chegar ao seu resultado final. Tal como na escrita. Inspirei-me no crochet nórdico para criar as minhas primeiras peças. Ficaram todas horríveis, muito diferentes daquilo que via no Pinterest e em todas as páginas de crochet nórdico que seguia. Mas não desisti. Simplesmente passei a desmanchar (quase) todas as peças que me saem das mãos.

Passados quase 3 anos, consigo agora fazer peças engraçadas (neste momento, estou a trabalhar num casaco para o meu filho mais novo), embora tenha a noção de que nunca serei incrivelmente talentosa nem capaz de produzir as peças lindas das artistas que continuo a seguir. E está tudo bem. Porque o importante é que, no processo de produzir as peças, consigo exatamente aquilo que queria: o descanso da mente.

O que preciso para escrever?

A história que contei pode aplicar-se a praticamente tudo na vida, escrita incluída. No meu caso, escrevo por profissão, o que faz com que tenha de ser um pouco mais empenhada e consciente na escrita do que no crochet: afinal, é da minha competência que depende o ordenado ao fim do mês. Mas serei realmente boa naquilo que escrevo, ou o resultado final assemelha-se às peças tortas e desengonçadas que me saiam das agulhas, nos primeiros tempos? Não sei. E talvez nem queira saber.

O que me interessa é que o processo de escrita é algo que me dá prazer. Tal como no crochet: ir fazendo crescer o texto, palavra após palavra, linha após linha, até chegar ao final. Às vezes, a peça final fica bonita, harmoniosa. Outras vezes o resultado é desconjuntado e deselegante. O que realmente interessa é o que aprendi no processo.

A escrita é uma ferramenta indispensável, seja qual for o seu emprego, ocupação, vontade, objetivo ou desejo. Escrever pode ser uma ferramenta para alcançar diversos objetivos: conseguir mais visibilidade no emprego, chegar ao outro de uma forma eficaz, aumentar o alcance nas redes sociais…

Se alguma vez pensou algo como “gostava tanto de saber escrever” ou “quem me dera puder escrever como fulano”, mentalize-se: não precisa ser Saramago nem Hemingway para escrever, muito menos para tirar prazer da escrita. Basta-lhe caneta e papel (a boa e velha BIC e uma folha qualquer servem) ou um computador com um processador de texto (não precisa sequer ser de última geração).

Se, por outro lado, sente que precisa de ajuda, a oferta em workshops e cursos de escrita é vasta mas, antes, considere algumas destas ferramentas:

  • Uma boa gramática;
  • Um dicionário de sinónimos;
  • Um conjunto de exercícios para desbloquear a escrita.

Qualquer uma destas ferramentas pode ser conseguida sem ser necessário investimento: pode encontrar a gramática e o dicionário na biblioteca municipal ou alternativas online. Quanto aos exercícios, uma rápida pesquisa no Google dar-lhe-à resultados suficientes para se entreter durante meses.

Acima de tudo, olhe para a escrita com outros olhos: divirta-se, desfrute e esqueça Saramago e Hemingway. Escreva como você mesmo: é muito mais divertido.

Nota: este artigo foi escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico
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