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Sangue do meu sangue

Foi crescendo devagarinho. Primeiro um insulto. Depois um safanão. O cabelo puxado com força. A mão assente na perna, a meio da viagem de carro, os dedos em garra a marcar terreno. O silêncio dela. A cabeça baixa, a respiração lenta, tão lenta, quase inaudível como se quisesse desexistir, uma construção esfumada a desfazer-se sem alarde e a inventar palavras porque nenhuma define este buraco negro aberto naquele peito. E Sara. Depois Sara. Antes Sara.

Sara com o pai morto no chão e a vida a correr-lhe à frente dos olhos. A porta a abrir-se devagar e Sara inerte, o álcool a fazer sprints dentro do seu organismo, a névoa no olhar. Passo a passo, a mãe de Sara aproxima-se da sala. O marido jaz ali, ela finalmente livre. A mãe segura Sara pelos ombros e vira-a para si. Pede-lhe desculpa, peço desculpa por ter matado o teu pai, mas nunca pedirei desculpa por ter matado o monstro. Sara ouve-a, a voz da mãe como um sussurro dito ao longe, quase como se lhe falassem em sonhos, do lado de lá da morte ou do esquecimento. 

Sara não sabe, mas a mãe está quase tão morta como o pai. Sara olha para o sofá à procura de uma ponta onde possa sentar-se, desvia ligeiramente a mão morta do pai, o rigor mortis ainda a deixar que o movimento se faça, e senta-se evitando o sangue (sem sucesso). A mãe senta-se no braço do sofá, longe do marido, longe de si mesma, ela que já não é ela, mas apenas a réstia de mulher que sobra antes do encarceramento.

As duas mulheres olham-se em silêncio. Sara, por fim, pede desculpas à mãe. Nunca soube que este era o seu pai, este, o que batia na mãe, o que a torturava, o que a prendia numa solidão silenciosa e abjecta enquanto o mundo parecia correr num sopro suave. Pede-lhe desculpas por ter sido o seu carrasco, não precisa que a mãe lhe explique que foi porque Sara existe que aguentou todos estes anos de maus tratos. Pede desculpas porque sente que, de certa forma, foi ela a empunhar aquela faca e a espetá-la no peito do pai. E sente que, de certa forma, fez o mesmo com a mãe, porque esta morte matou-os a ambos, embora de formas diferentes. 

A mãe evita olhar o marido, mas quer ter a certeza de que ele está morto. Na sua cabeça, a questão maior é o que fazer a seguir: entregar-se, esperar que o padre a denuncie ou que alguém no trabalho do marido dê conta do seu desaparecimento às autoridades e ela seja apanhada a seguir. O resultado será sempre o mesmo: uma cela fria, paredes de cimento, grades metálicas e o som dos seus pensamentos a fazer eco pela sua vida fora. 

Sara pensa quase no mesmo. Não é justo que a mãe, que deixou de viver no instante da primeira bofetada, termine a sua vida encarcerada. Não é justo que esta mulher, que aguentou tudo em nome da filha, enfrente o sofrimento de uma prisão da qual demorará vinte e cinco anos a sair, quando, na verdade, esteve mais vinte e tal anos presa naquela vida. Levanta-se do sofá e vai à cozinha de onde traz um pano. Tira a faca do peito do pai e limpa-a com cuidado. Demora muito tempo a limpar a faca, não quer que nada lhe escape. Quando sente que a limpeza é suficiente, passa o pano para a mão esquerda e pega na faca com a direita. Respira fundo, uma, duas, muitas vezes. Na outra ponta do sofá, a mãe não faz um movimento sequer, não é capaz. Sara volta a pôr a faca na ferida do pai. Agarra bem o punho, não o evita de forma nenhuma. Enfia a faca devagar, sabe que nada daquilo é sentido por ninguém, a não ser por ela. Ao pai, tanto faz. 

Leva o pano para a cozinha e coloca-o no lava-loiças; pega-lhe fogo. Espera que o pano se desfaça e limpa o lava-loiças com cuidado e muita lixívia. Se alguém perguntar, dirá que quis apenas livrar-se do sangue do pai que tinha nas mãos. Na sala, a mãe continua imóvel, anestesiada pela dor do que está por vir.

Sara pega no telefone e liga para a polícia. Venham; matei o meu pai.

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

5 Comentários

  1. Venham mais três minutos desta história, e mais três, e mais cem vezes três. A tua escrita tem alma e vê-se que há tanto ainda por dizer. Aguardamos, numa antecipação do doloroso prazer da leitura da história de Sara.

  2. Arrepiada como sempre! Este conto não termina aqui e tu sabes! Liberta a tua voz e conta-nos o que se passou com a Sara.

  3. Agora a Sara “cresceu”. E quando as personagens crescem assim e é impossível não contar o resto da história.

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