A Promised Land

Em Julho de 2004, na Convenção Nacional do Partido Republicano, subiu ao palco um jovem afro-americano, de descendência queniana, que num discurso inspirador e entusiástico, apaixonou a América. Este foi o dia em que Barack Hussein Obama, saiu do anonimato e se tornou no rosto da mudança e da esperança, apaixonando não só os Estados Unidos, mas o mundo inteiro.

A Promised Land (Uma Terra Prometida), é a obra intimista e introspectiva de Barack Obama, que passa em revista o inicio da sua vida e todos os acontecimentos importantes que culminaram na sua nomeação ao senado e na corrida à Presidência dos EUA. Nas 800 páginas que completam este primeiro volume, descreve com minúcia, humor e grande inteligência os primeiros anos à frente dos destinos da América. Exímio contador de histórias, apresenta-nos as suas dúvidas, angustias e os acontecimentos mais relevantes dos primeiros dois anos do seu primeiro mandato, de uma forma envolvente e realista.  

As obras autobiográficas tendem a refletir apenas uma visão da história e, em parte, procuram re-escrever os acontecimentos. Obviamente que, também aqui, existem situações pontuais em que o acesso a alguns factos promoveriam outra perspectiva dos acontecimentos, no entanto, não deixa de ser inspirador conhecer na intimidade as dúvidas, inquietações e até mesmo os erros, de um dos homens mais importantes do mundo, à data. 

Promised Land é uma espécie de conversa franca e pessoal, em que Obama se senta connosco e começa por nos contar como foi iniciar a sua presidência no meio de uma das maiores crises económicas desde 1929, a crise do Subprime de 2008. De forma simples, mas precisa, relata-nos todos os acontecimentos que geraram a crise, bem como as suas hesitações para encontrar uma solução que mitigasse os danos e impedisse os EUA de mergulharem numa profunda depressão económica. Relata-nos como o cinismo de um Senado adverso, que boicotou um dos grandes programas da sua administração – o Obamacare, um plano de reforma do Sistema de Saúde, que garantia acesso à saúde a todos, inclusivamente aos mais desfavorecidos. Partilha as indefinições e motivações que originaram o célebre discurso do Cairo, em que se dirigiu ao povo árabe e muçulmano, com a promessa de esperança e de um novo recomeço. Confessa-nos os jogos de bastidores e a forma como entrou de rompante numa reunião dos países BRICS e os convenceu a assinar um acordo para a redução de gases com efeito de estufa. 

Com o seu estilo informal e cativante, Obama abre-nos as portas da sua Casa Branca e da sua administração. Um homem que subiu ao poder como o rosto da mudança e da esperança, mas que se viu a braços com a herança de uma das maiores crises financeiras, duas guerras perdidas e uma sociedade cada vez mais polarizada. Um biracial, que evitou a todo o custo a carta do racismo e que acredita numa América inclusiva, apesar de muitas vezes ser ele próprio vítima da perseguição de uma comunicação social tendenciosa e racista – ou será que a Bill Clinton ou a George W Bush alguém exigiu a certidão de nascimento?!

Obama, pelo posto que ocupava e pelo seu percurso de vida, considera-se um homem sempre com sorte. Liderou a sua equipa de forma inclusiva, procurando conhecer a opinião de cada um dos seus colaboradores sobre os assuntos em discussão. Comprometido em manter os pés no chão e o cinismo longe, diariamente lia uma cuidada seleção das cartas dos seus cidadãos, favoráveis e desfavoráveis, de forma a ter uma perspectiva real do que se passava fora dos limites de Washington. Um homem cheio de ideias e um presidente que lutava constantemente por aplicar os seus ideais, dentro dos meandros e das cedências obrigatórias da política.  

Promised Land é o relato histórico de alguém que ajudou a escrever a história. A perspectiva íntima de um dos homens com poder de decisão em muitos dos acontecimentos políticos da história recente do nosso mundo. É espaço de apresentação dos factos, explicação dos problemas e discussão das possíveis soluções, tal como de relato de todas as interrogações e discussões que estão nesse processo. 

Obama entrou para a política para ajudar as novas gerações a terem uma melhor educação e, durante a sua administração, lutou por um mundo melhor, um planeta mais saudável e uma sociedade livre e democrática, no entanto, muitos dizem que os seus esforços e a sua prestação ficou aquém do esperado. Eventualmente porque as expectativas estavam altíssimas, apesar das condicionantes serem inúmeras e dos acontecimentos do mundo não terem facilitado.  

No entanto, tal como ele, acredito na importância da sua presidência para as novas gerações, especialmente para as crianças negras, hispânicas e castanhas, que ao existir um presidente com o qual fisicamente se se identificam, compreendem que também eles são capazes de escrever a sua própria história. Este livro, a meu ver, é a continuação da sua missão: uma peça fundamental para a compreensão da história, que nos inspira e motiva a fazer mais e melhor pelo futuro.
Yes we can!

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
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