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ContosCultura

Ataque fulminante

Este foi o momento exacto em que percebi:

Mexias o café num ritmo lânguido que me falava de desistência. Pestanas furtivas, olhar exausto. Tinhas uma longitude em ti que eu nunca tinha sentido. Tudo nos teus gestos me dava a certeza da tua infelicidade. Sempre tiveste a honestidade dos gatos.

Eu observava-te. A saber, a saber, a intuir. A ignorar. A sentir-me isolado naquele café, a pressentir o mundo a andar muito devagar ou muito depressa. A ignorar, a ignorar, a ignorar com toda a força que tinha. Mas como se ignora saber-se ser nuvem negra carregada de tempestade? O silêncio era uma ponte a ruir entre nós, a tornar-se nada, a ser abismo.

Mexias o café e a alça do teu top caiu. Não te incomodaste em levantá-la. Foquei-me nesses pormenores: os teus ombros, os teus lábios cheios de café, o teu pescoço tenso, toda tu tensa, vais dizer algo, é agora, é agora, vais fazer explodir o mundo, o ar a faltar-me e de repente

“Vamos?”

Deixaste uma moeda em cima da mesa e disseste só “vamos?” e eu dei-te a mão com a esperança dos erros incorrigíveis. Suspirei de alívio. Mas eu sabia, sabia, intuía. Tu começavas a diluir-te. Ou eras já outra. Eu ignorava, ignorava, oh, se ignorava. Doía-me o maxilar de tanto me esforçar por ignorar o pressentimento frio que me escorria pelas costas. Sentia-o nos ossos. E depois tu fingiste qualquer coisa e soltaste-me da mão e não me voltaste a procurar.

Esse foi o momento exacto em que percebi: morria de ataque repentino e fulminante toda a possibilidade de voltar a alcançar-te.

Continuaste a andar ao meu lado, tão perto que sentia o teu cheiro, tão longe que a tua pele se estava a transformar em terra desconhecida. Os meus dedos irrequietos, à espera do toque dos teus, mas tu não me procuraste. Agora vivias atrás de uma porta fechada que eu não conseguia abrir, não podia sequer espreitar porque não te reconheceria, não saberia em quem te tinhas tornado. Eu sem respirar, a sentir que afinal ia implodir, que eu é que ia desaparecer. O teu corpo doía-me nos dedos. Precisava, precisava, precisava com urgência de te saber real, de perceber se algum dia tinhas existido em mim ou não, como é que de repente me és tão desconhecida? Como? Como?

Fechei os olhos e gritei até conseguir respirar de novo.

Respirei. Respirei fundo.

Mas só depois de sentir o teu pescoço silencioso e inerte entre as minhas mãos.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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