No final do mês de novembro revi o filme “The Doors – O Mito de uma Geração” de Oliver Stone no cinepop em Lisboa. Por incrível que pareça, nunca o tinha visto no cinema. Quando me apercebi de todo o fascínio que tinha pela banda, o filme tinha acabado de sair do cinema.
Também no inicio do mês dezembro, tive também a oportunidade de rever o documentário “When You’re Strange” de Tom Dicillio no cinema, no âmbito comemoração dos 60 anos da banda. Este só o tinha visto em DVD, apesar de ter estreado no Indielisboa (2010), precisamente no meu dia de anos.
Como fã, ter revisto estes dois filmes tão marcantes e importantes, que narram tão bem a história dos Doors, fez-me refletir que seria que seria interessante cruzá-los agora num artigo, já que se “cruzaram” comigo, nos últimos tempos de uma forma um pouco aleatória… Obviamente, tudo o que tenha a ver com os Doors, para mim, nunca é totalmente desprovido de um sentido maior.
Quando Oliver Stone lançou “The Doors – O Mito de uma Geração” em 1991, o filme tornou-se mais do que uma cinebiografia: converteu-se numa versão cinematográfica do próprio mito que envolve Jim Morrison e a banda. Quase duas décadas depois, Tom DiCillo estreou “When You’re Strange” (2009), um documentário rico em imagens reais da época e que procurou justamente desmontar, ou pelo menos corrigir, esse mesmo mito, oferecendo um retrato mais factual e equilibrado. Juntos, os dois filmes formam uma espécie de díptico involuntário: um mostra o mito em plena combustão romântica e o outro tenta esclarecer o que havia por trás das chamas.
Como ponto de partida de ambos os filmes, temos o mesmo fascínio pelo Jim Morrison como figura enigmática, carismática e autodestrutiva, cuja influência continua a ecoar na cultura popular. Tanto Stone como DiCillo reconhecem a dimensão poética e performativa do vocalista, bem como o impacto dos Doors na contracultura dos anos 60. Em ambos, a música surge como elemento central, não apenas banda sonora, mas motor narrativo que conduz o espectador ao clima fiel da época.
Além disso, tanto o filme de Stone quanto o documentário de DiCillo procuram contextualizar os Doors como sintoma de um período turbulento: a guerra do Vietname, a contestação juvenil, as trips com drogas e a busca espiritual. A banda funciona como lente através da qual se observa uma geração à procura liberdade e de quebrar amarras.
O que distingue cada um, o mito vs o documental? A grande diferença reside no ponto de partida e no compromisso com a realidade.
Ora vejamos, Oliver Stone opta por uma abordagem dramática e estética.
O filme não pretende ser um retrato rigoroso, mas uma interpretação sensorial da vida de Morrison. Sem Val Kilmer que encarna o vocalista com intensidade quase sobrenatural, a “magia” de Stone não teria conseguido concretizar-se tão bem, é sem dúvida o papel da vida do ator! Stone manipula cores, ritmos e enquadramentos para criar uma viagem psicadélica que amplifica o lado místico, perigoso e libertário do protagonista. O Jim Morrison que vemos ali é uma personagem maior do que a vida: um xamã do rock, um poeta maldito, um sex symbol, uma alma incendiada pela própria voracidade.
A crítica mais frequente é justamente essa: Stone exagera a figura de Morrison e simplifica os outros membros da banda. Durante muito tempo, foi também essa a lacuna que senti em relação a este filme. No entanto nele temos a dramatização, a invenção e uma estética muito marcante, e é precisamente isso que torna o filme iconográfico, The Doors não é uma história: é lenda!
Já Tom DiCillo, por sua vez, procurou desmontar a lenda sem destruir o fascínio.
When You’re Strange utiliza apenas filmagens originais: bastidores, concertos, entrevistas, registos caseiros. Narrado por Johnny Depp (na versão internacional), o documentário devolve aos Doors uma humanidade que muitas vezes se perde em versões romantizadas. O Morrison não aparece como xamã, mas como artista talentoso, complexo e muitas vezes descontrolado. Os restantes membros surgem não como figurantes, mas como músicos coesos e fundamentais para o som da banda.
No documentário não temos nenhuma dramatização, DiCillo não dramatiza, organiza! Não interpreta, contextualiza! A força do documentário está na autenticidade: vemos o que realmente aconteceu, sem filtros expressionistas ou exageros encenados.
O que torna cada um interessante por si só?
O filme de Oliver Stone é interessante, porque se assume como ficção poética. É uma obra que joga com símbolos, arquétipos e exageros para captar a “essência emocional” da banda. Mesmo com imprecisões, oferece uma experiência estética poderosa, hipnótica, visceral, uma viagem que traduz o espírito psicadélico melhor do que muitos documentários “fiéis”.
O documentário de Tom DiCillo, por outro lado, é valioso pela capacidade de devolver ao público a verdade histórica e afetiva dos Doors. Permite ver quem eram realmente, como trabalhavam e como se relacionavam. Ao contrário da versão grandiosa de Stone, DiCillo oferece intimidade, subtileza e clareza.
“he Doors – O Mito de uma Geração” e “When You’re Strange ” não competem entre si, complementam-se. Um constrói o mito, o outro questiona-o. Um dramatiza, o outro documenta. Um devolve o lado mítico da contracultura, o outro, o lado humano.
Para quem tenta compreender não apenas Jim Morrison, mas também a forma como os mitos culturais são criados, distorcidos e reinterpretados, ver ambos é essencial. No cruzamento entre Stone e DiCillo encontra-se talvez a verdade mais profunda sobre os Doors: uma banda que foi simultaneamente real e mítica, quotidiana e transcendental, e que continua a fascinar porque vive justamente nesse espaço entre o que aconteceu e o que imaginamos que tenha acontecido.
No fundo, os dois são duas versões de uma mesma herança.
Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico