Um eterno déjà vu

Acordou cedo a sentir-se presa a um eterno déjà vu. Abriu os olhos e era como se já tivesse visto tudo o que poderia ver, como se já conhecesse todas as caras, todas as vozes, todas as palavras e todos os lugares que deveriam ser novos. Nesse primeiro dia, ficou confusa. Não entendia o porquê daquela continuidade, beliscou-se procurando a certeza que era realidade, até que começou a sentir-se fascinada; acabava as frases das pessoas com quem falava, surpreendia os amigos com uma previsão correcta do segundo seguinte. Mas, pouco tempo depois, aborreceu-se.

Tentou pregar pequenas partidas a si mesma, como abrir um mapa, fechar os olhos e escolher um lugar ao acaso. Mas, mesmo antes do dedo decidir às escuras, ela já sabia qual seria o destino. Chateou-se. Enquanto guiava para casa, decidia fazer outro caminho qualquer, que supostamente seria desconhecido, mas parecia já ter-se cruzado com aqueles momentos pelos quais passava. Tentava ir dormir mais cedo, ou mais tarde, atrasar-se ou adiantar-se, mas tudo lhe parecia já pensado, destinado, mastigado, conhecido. Rapidamente começou a sentir-se triste, deprimida, cansada. Nada a fazia sorrir.

Procurou respostas. Procurou na Internet. Só que rapidamente desistia – já conhecia todas as soluções. Tentou ir aos médicos, mas já sabia os diagnósticos que os neurologistas e os psiquiatras lhe dariam, os nomes de todas as doenças possíveis que não faziam sentido. Não sabia o quê nem porquê, mas sabia que havia algo mais.

Até que, no meio de um dia tão previsível como todos os outros, teve a sua primeira surpresa. Madame Valquíria esperava-a à porta, uma cigana muito escura e gorda, com os olhos muito verdes e grandes, os lábios grossos pintados de vermelho e uma verruga num canto do nariz. Vestia-se toda de preto, excepto o lenço multicolor que tinha na cabeça, como que para afastar os cabelos negros da cara severa e sábia.

“Entre, menina” sorriu, e desapareceu para dentro de um prédio. Ela, curiosa por não ter previsto aquele encontro, seguiu-a. Lá dentro, numa sala colorida e iluminada por velas, encontrou Madame Valquíria sentada a uma mesa. Uma rapariga muito bonita, possivelmente a filha, sentava-se num canto, pronta a observar e a ajudar.

“Filha, conta-me o que tens passado?”

E ela contou. Madame Valquíria ouviu, atenta, de olhos fechados. De vez em quando anuía, outras vezes franzia o sobrolho. Quando ela acabou, Madame Valquíria esticou o braço em direcção à rapariga e disse “as cartas”. Os olhos continuavam fechados e a cara em paz, como se meditasse ou estivesse hipnotizada. Lançou as cartas, e só aí abriu os olhos.

O diagnóstico veio rápido: “Não tens coração.”

Ela quis saber como era isso possível. Madame Valquíria não soube explicar – às vezes nascia-se assim, outras vezes ia-se perdendo, fosse por não aproveitar a vida, fosse por ignorar a maldade, fosse por não alimentar o coração. Mas a cigana deu-lhe esperanças: claramente, ela tinha tido um coração que se tinha ido perdendo aos poucos. Saiu da sala da cigana com uma receita que deveria seguir estritamente, e ainda nem tinha passado um mês de dieta emocional quando acordou feliz por sentir que tudo era uma incógnita e que nada era impossível.

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