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Só o teu nome

Ai, não, pára. Pára.

Não aguento mais.

O quarto atira-me de volta os versos que pousas nas paredes. E eu preciso tanto de dormir. Toda a casa grita e me fere os ouvidos como feedback. E eu preciso tanto de dormir. Essas vozes misturam-se com as que tenho dentro de mim, marcam encontro na praça principal do meu coração e unem-se em marcha pelo direito a sonhar. E eu não aguento mais, preciso mesmo de dormir.

A janela aberta traz-me o vento que cheira a Outono. A noite esgueira-se entre as frestas e cai no meu quarto. Às vezes, é dia. Outras, escuridão. Não consigo acompanhar o movimento das sombras. Ando aos tombos no tempo.

Ai, não, pára. Pára.

Não me olhes assim. Baralhas-me o espírito. Prendes-me à tua liberdade e eu não sei acompanhar. Nesse teu cantinho do meu quarto, sorris e brilham-te os olhos, está sol e tens no corpo todas as promessas que consigo imaginar. Como não hão-de estar estas paredes cheias de poesia? Como não hei-de estar eu a afogar-me em ti?

Mas não aguento mais, preciso mesmo, mesmo de dormir.

A mulher leu-me as cartas, as linhas das palmas das mãos, as borras no fundo da chávena de café. Mas nem era preciso tanto, bastava o meu olhar. Eu estava à espera de avisos crípticos, informações esfíngicas, qualquer coisa de duvidoso. No fim, acendeu um cigarro e diagnosticou-me: o teu nome. Só o teu nome. Não me disse mais nada. E eu, que nem acreditava em magia, não tive remédio: aceitei trocar o meu sono pelo teu amor.

Ai, não, pára. Pára.

Não me convences mais. Acabou. Foi uma troca impossível e eu preciso de descansar.

Levanto-me na tua direcção. Tiro as tuas fotografias da parede: o sol, o teu sorriso, o teu brilho. Rasgo tudo. Desfaço em pedaços as tuas promessas – doem muito porque nunca mas fizeste. Apago as velas. Nesse teu cantinho do meu quarto fica apenas uma mesa de madeira vazia, suja de cera e cansada de ouvir preces. Despidas as paredes, despido o altar. Quem quiser que me queime por bruxaria.

A casa fica em silêncio. Nenhuma parede me atira versos, nenhuma voz me pede sonhar.

Fecho a janela. Deixo a noite fora. No reflexo, percebo as rugas, a corcunda, o tremor. Toco na cara, no cabelo, nas gengivas sem dentes. Como é que resvalei pelos anos sem perceber, sem tropeçar, sem viver?

Só esperei. Esperei. Esperei. Esperei.

Até hoje.

Hoje volto a dormir. Hoje volto a sonhar. Não sei se acordarei amanhã. Afinal, de que adianta?, se tu nunca, nunca, nunca vieste.

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Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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