Televisão

Sobre a série “When They See Us”…

No dia 19 de Abril de 1989, no Central Park da cidade de Nova York, Trisha Meili foi encontrada quase sem vida, com sinais brutais de agressão física e de violação sexual. É em torno desse caso que se desenrola a minissérie “When They See Us”, a sombria história de 5 adolescentes norte-americanos (4 afro-americanos e 1 latino-americano) condenados a penas de prisão entre 4 e 14 anos pelos crimes que nunca cometeram. Sem uma prova sólida sequer que os ligasse aos crimes, para além do facto de terem estado no local na fatídica noite. Não havia impressões digitais ou rastros de DNA compatíveis. Foram acusados apenas com base nas confissões dos próprios suspeitos, arrancadas sob coação e quase todos sem a presença dos devidos advogados, por uma polícia desesperada em resolver imediatamente um crime contra uma mulher branca. Um dos adolescentes, pasme-se, foi condenado, porque, no dia em que o seu amigo Yusuf Salaam foi detido para interrogações, decidiu acompanhá-lo à esquadra e, já lá dentro, foi também interrogado por associação e obrigado a confessar ter praticado o crime…

A mini-série, baseada em factos reais e genialmente dirigida por Ava DuVernay, está dividida em apenas 4 episódios de mais ou menos uma hora cada. Cada um deles retrata tanto os horrores da noite dos factos como as desgastantes sessões de julgamento e, nas quase eternas duas décadas que se passaram até à libertação de todos os presos, as desoladoras implicações sociais da sua prisão para as respectivas famílias. Depois, segue-se o cliché de sempre: o escárnio estereotipado da sociedade para alguém com cadastro criminal, na candidatura para um emprego, na ressocialização no bairro, nos relacionamentos amorosos ou até mesmo dentro da própria casa. Alguns deles ainda viveram, já fora da prisão, outras diversas prisões no incontornável processo de reconciliação com a sociedade. Contudo, também há no desenrolar da minissérie alguns momentos de empatia positiva, de solidariedade e de superação, na história de vida pós-prisão de um ou de outro. Foi memorável ver, por exemplo, a forma como cada um deles reagiu à notícia da absolvição colectiva dos crimes, décadas depois de entrarem para a prisão.

A história, sempre actual em sociedades com minorias raciais, traz à luz as ambiguidades e os exageros de sistemas de administração de justiça ainda feridos de preconceitos, de estereótipos e de subjectividades: pessoas brancas, em posições de poder, retratando generalizada e indiscriminadamente minorias raciais como potenciais criminosos violentos. Contudo, muito mais do que isso, chama à colação todos os cenários pelos quais qualquer um de nós pode sempre passar: julgamentos sumários e arbitrários de terceiras pessoas que, apenas por termos estado no lugar errado e na hora errada ou por termos dito a coisa errada em circunstâncias erradas, insuflam-se de “complexos de deus” e alteram sem a menor comoção (ou remorso) o destino das nossas vidas para sempre. A aterradora experiência prisional de Korey Wise (o que acabou como culpado apenas por ter acompanhado o amigo à esquadra) e que mereceu um episódio inteiro no final, é disso exemplo. Nenhum ser humano teria competente estrutura emocional para passar por tudo aquilo e manter invicta a sua sanidade mental.

É um grande momento de cinema real. Ou de realidade cinematizada. Não admira que a minissérie tenha estado, muito pouco depois de ser lançada, a liderar o trending de exibição da Netflix. “When They See Us” está também a fazer ressurgir, na imprensa mainstream, o velho debate cultural sobre o racismo, a sexualidade e a criminalidade associados ao tom de pele nas sociedades ocidentais. Embora minados de lugares comuns como “privilégio branco”, “feminismo”, “brutalidade policial” e derivados (como o pânico social trazido pelo fenómeno #Metoo movement), não deixa de ser um sério convite à re-examinação da extensão e da compreensão contemporânea do velho princípio jurídico da presunção de inocência. Felizmente.

Edgar Mundulai Barroso

Ser humano ainda em construção...

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