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ContosCultura

O Livro de um Louco

Ele recordava-se das feições daquele louco. Das covas profundas causadas pelo riso agudo e prolongado; dos olhos finos e sobrancelhas brancas e espessas; dos lábios com vincos profundos como desfiladeiros abruptos a rasgarem uma planície; do sorriso confuso de quem não sabia se devia rir ou chorar por não saber no que diferem.

Ele recordava-se daquele louco mas não sabia exatamente quem ele era.

A sua casa deveria ter sido um forte e um ninho. Mas ele cresceu sem proteção e sem amor. O aroma que recordava da casa era o do álcool e a música eram gritos e lamurias de dor. A sua mãe culpava-o por não ter a vida com que sempre sonhou e por isso sempre o negligenciou. O pai eram dois. Um só o via de manhã e outro só o via ao final do dia, a tresandar a álcool e por vezes com o cinto em punho a estalar nas suas costas sem motivo aparente, só porque sim, ou talvez porque só assim a sua mãe sorria. A casa de banho era um parco refúgio onde se escondia deitado na banheira molhada com as suas lágrimas. Apenas se acalmava a morder uma lâmina de barbear que um dia roubou ao seu pai. Colocava-a entre os lábios e cerrava-os lentamente até sentir gostas de sangue a escorrerem pelo queixo.

Nos primeiros anos de escola não aprendeu a fazer amigos. A sua aparente ausência do local e do momento onde se encontrava faziam dele um menino diferente dos outros. Ninguém sabia como se aproximar dele para ver se estaria ali alguém com quem brincar. O tempo passou e ele sentiu-se cada vez mais só. E ele tinha tanto para dizer, para gritar, para chorar. Como não conseguia, escondia-se e mordia a lâmina que passou a ter sempre consigo.

Um dia, já um pequeno e introvertido rapaz, enfrentou um grupo de colegas a rirem-se de si. Irritou-se e verteu lágrimas o que só agudizou o tom do gozo. A irritação transformou-se em ira e pegou numa pedra, a mais perto de si que por acaso até era digna de figurar num tribunal como prova de um crime, arremessou-a mas a indefinição de um alvo levou-o a falhar. Um rapaz ainda ouviu o silvo da pedra a cortar o ar a escassos milímetros da sua orelha e por isso correu atrás dele. E depois todos correram atrás dele. Ele conseguiu refugiar-se num dos blocos da sua escola e lá dentro sentou-se num canto e mordeu a lâmina. Sentiu-se seguro e percebeu que tinha entrado na biblioteca. Nunca antes vira tantos livros juntos. Como não sabia o que ler, tirou o primeiro livro da primeira prateleira do primeiro armário. E gostou. Era o livro de um louco que dizia ter a solução para extinguir a maldade no mundo.

Nas semanas seguintes, ele passou todo o tempo que podia na biblioteca a ler aquele livro. Leu e analisou cada palavra e frase escritas pelo louco. Passou semanas a pesquisar o nome daquele louco que queria acabar com a maldade mas ninguém parecia saber quem era. Perguntou a professores e todos lhe disseram para esquecer o assunto, para ele se concentrar nas aulas. Mas ele sentia a verdade nas palavras do louco, No último dia de aulas, foi à biblioteca e escondeu o livro na sua mochila para nunca mais dele se separar.

As palavras do louco falavam-lhe da bondade do homem e de como podia transmiti-la através de atos aleatórios de bondade. Assim como o pai lhe batia só por que sim e os colegas lhe gozavam por motivo nenhum, esses atos de bondade tinham que surgir também por motivo nenhum. Mas nunca ninguém lhe ensinou o que era a bondade e todo o livro lhe parecia um enigma. O próprio louco também parecia não conhecer a natureza humana e percebeu que o seu grande desafio começava por ser mais humano. Um dia falou com o pai sobre o livro. Tentou em vão descobrir o seu lado humano e falou-lhe que queria ser bom. O pai riu-se e arrancou-lhe violentamente o livro das mãos. Foi como se tivesse arrancado um louco em vez do livro. Ele reagiu, esbracejou e gritou com o pai antes de ser derrubado com um pontapé no estômago e outro no nariz. O sangue a cair do nariz partido e a lâmina que mordia a pingar sangue eram a última coisa de que se lembrava.

Anos mais tarde, aquele rapaz era memória distante. A sua casa era agora um pequeno quarto com paredes almofadas e uma pequena janela azul por onde via os pardais a cantarolarem. O juiz não o compreendeu. Nem médicos o compreenderam. Aquele rapaz surgiu ali a falar de um livro que nunca ninguém vira, que nenhum catálogo conhecia. Mas o rapaz sabia todas as frases e palavras desse livro. Deram-lhe um lápis e folhas de papel e ele passou dias desenfreados a ocupar as folhas brancas com tudo o que se lembrava e que era tudo o que tinha na mente.

Por fim sentiu que tinha terminado. Chamou o seu médico psiquiatra e entregou-lhe as folhas. O médico leu e ficou a saber quem tinha na sua frente. Leu todas e cada folha com atenção. Era história de um rapaz que foi espancado várias vezes pelo seu pai enquanto a sua mãe ria por ele lhe ter destruído os sonhos ao nascer. Era a história de um rapaz que nunca conseguiu fazer um amigo e era gozado por todos na sua escola. Era a história de um rapaz que só se acalmava ao morder uma lâmina de barbear. Era a história de um rapaz que um dia descobriu um livro que não existia. Era a história de um rapaz que um dia rasgou a pele e a carne do seu pai e da sua mãe ficando a observá-los em silêncio enquanto a vida se extinguia deles. Era a história de um louco que queria espalhar a bondade mas nunca soube o que a bondade era, e por isso escreveu um livro para um dia no passado, um rapaz o encontrar.

André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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