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Remetente, a morta.

São dez horas e vinte e sete minutos. Disse ontem a mim mesma que me levantaria cedo. Disse ontem, no dia anterior e noutros tantos que os antecederam. Não aconteceu, outra vez. Arrastei-me para fora da cama, espreitei a sala, sentei-me no sofá e deixei-me estar. Quarenta minutos no marasmo. Tornei à cama. Mil voltas, semi-embalo, dormência, mas sem dormir. Dormir é outra coisa. Meio-dia e meia. Levanto-me, escovo os dentes. Sinto a escova roçar na gengiva e dou conta do barulho da força que tendo a fazer para provocar a fricção. Sangue mistura-se à pasta, bocal balburdia. Profissionais da odontologia já me haviam chamado à atenção por isto. Demasiada agressividade na escovagem, ao que parece. Continuei. Lembrei-me que era a sensação mais real dos últimos tempos, a gengiva em sangue. Há qualquer coisa que se deita comigo e que comigo se levanta. Qualquer coisa que deixou de estar de forma intermitente e que agora está o tempo todo. A mais temível das coisas. Está cá sempre, um vazio. Locomovo-me em modo automático. As minhas reações são fragmentos de memórias do que sei ser suposto da minha pessoa. Queres café? Ouço a pergunta. Dá para sentir pontada de ansiedade. Se quero, não sei. Em outro tempo haveria de querer, digo por isso que sim. Melhor teria sido que me dissessem: anda, vamos beber um café. Iria, apenas. Assim, tenho de forçosamente lembrar-me que nem sei se o quero.

Parecia mesmo que o queria. Deixei-o estar na minha mão por cinco minutos. O bailado da chávena do café cheio, como peço sempre. Nunca consegui apreciar bebidas excessivamente quentes. Tenho ali um ponto específico que preciso encontrar. Existe um namoro entre mim e o café. Ou existia. Lembro-me e faço a mesma coisa, mas já sem a sensação do namoro. É já uma relação gasta, como o resto com o que me relaciono. Solto umas piadas. Sou incrivelmente boa nisto quando estou com gente do mesmo calibre. Quando não estou, continuo a ser incrivelmente boa, mas sem que exista valorização da minha competência. O humor é o meu momento mais real, o que me ancora ao presente. É preciso que as pessoas reparem nisto, uma boa piada, fruto do acaso do momento, emerge de uma espontaneidade criativa e arrojada de análise a factos em maioria banais, insípidos. Eleva-se a banalidade. Piadas de momento não vão buscar o senso de manipulação, falsidade ou o que o valha. Um tonto de acaso não está a falsear a conversa de circunstância com objetivos futuros. A estalagem da criatividade, o humor.

Finalmente o primeiro gole. Também não bebo o café de uma assentada. Pelo menos não o bebia antes e, pela lembrança, assim o continuo a fazer. É tal e qual como a felicidade e a tristeza, advêm de memórias que tenho sobre elas. Não quero realmente nada. Suponho que deva ficar triste ou contente em determinadas circunstâncias e projeto o suposto com fracas aptidões. Se me ando a agarrar às memórias e nunca soube ser que preste, agora não tenho como ser melhor. Executo, automaticamente, em marasmo, continuamente. Dá medo agir nestas circunstâncias. Estou a meio da linha, à espera de acordar do sono dos vivos ou de entrar no sono dos mortos. Passa vento e passa chuva e passa frio e é-me igual. Protejo-me, abro o guarda-chuva e tremo porque me lembro do manual de instruções. Tenho em mim a pior das sensações, vazio. Não sinto grande coisa. Nem medo. A ausência de medo dá-nos uma relação íntima com a morte. Morrer já não é tão descabido assim.

Merda do café, queimou-me a língua! Fiz uma piada meia javardona com o fator língua queimada. Estamos entre amigos, posso tudo. Não julguem, a javardice pressupõe uma excêntrica criatividade! A língua queimou-se num instante, a piada foi segundos seguintes. Uma chamada ao presente. Que alívio! Quase que ainda não tinha estado no hoje. Ah, a morte, sim. O fulano da rua Amália (há sempre uma rua chamada Amália) que se decidiu pelo sono dos mortos não estava tão alucinado como julguei noutros tempos. Já lhe pedi desculpa em pensamento, haverá de ter isto em conta. Passei a sentir-lhe uma afeição, compreensão. Carinho. Admiração, digamos. Quem não sente grande coisa percebe o descabido de se invocar o termo coragem. Coragem é coisa precisa quando há o medo, quando não o há… Tristeza é coisa que ocorre dada a existência de felicidade. Quando a memória é longínqua o suficiente para que a recordação da sensação desta última seja uma névoa, não se dá nenhum dos termos. Executamos e respondemos a circunstâncias.

Bebi o café até ao fim, concluí que o bebi sem que me apetecesse. Há um desgoverno nos pontos de sensação e nas lembranças. Deveria lembrar-me do que sentia quando não queria café. O mal disto é que nem tenho grande coisa para espetar numa carta de despedida, como manda a boa tradição quando se escolhe o fim da linha. A carta ajuda os vivos a encontrar o motivo. Ai, foda-se, o melhor era que Deus nosso Senhor me levasse. Digo e gargalho por qualquer coisa tonta que se disse e rimos todos. Não desejo isto, na verdade, que não sou apreciadora dos métodos do Altíssimo. Aqui, era mesmo uma fraca piadola. Nem sempre estamos no auge da criatividade. Mas que meto eu na carta? Remetente, a morta. Destinatários, os vivos. Motivo: ausência de sensações, particularmente as prazerosas, satisfatórias, entusiastas. Troquei a dormência pelo sono. Quase que os imagino em choque. A coisa não se fazia prever assim, algo se passava que não sabíamos! Já os imagino nisto. Eu sabia que a minha carta era incompreensível. Vazio e ausência de sensação aproximam-nos da morte. É a cama quente para a apatia. Nem toda a aproximação se faz com barulho ou sofrimento atroz. Há quem diga que é coragem, há quem diga que é fraqueza. Para quem está apático não é nada, é um acaso que vem à lembrança continuamente. Um acaso que cega ao ponto de só se ver beleza na natureza de Aokigahara.

O conceito de suicídio abrange ideias suicidárias vagas com ausência de plano, comportamento suicidário realizado, incluindo comportamentos autolesivos com e sem intenção suicidária.

Linhas Anónimas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal 

SOS Voz Amiga
Lisboa
Das 16h às 24h
213 544 545 – 912 802 669 – 963 524 660

Conversa Amiga
Inatel
Das 15h às 22h
808 237 327
210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal
Voades-Portugal
Das 16h às 22h
222 030 707

Telefone da Amizade
Porto – Desde 1980
Das 16h às 23h
228 323 535

Voz de Apoio
Porto
Das 21h às 24h
225 506 070

Gabriela Pacheco

Licenciada em Ciências da Educação e Formação. É Gestora de Desenvolvimento e Formação. Tem Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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