Scorsese, o compositor

Sempre sonhou muito, Martin. Sempre gostou de visualizar, mentalmente, o cruzamento de histórias, de personagens. Sempre soube o que lhe esperaria, desde rapaz novo, quando ficava na janela a observar os que pelo seu olhar passavam. Interessavam-lhe o cinema e a música, mas a devoção católica era uma matriz que o seio familiar o impelia a fomentar. Não é estranho que tenha querido ser padre. Marty, no entanto, havia de arranjar solução mais abrangente. Num dos tais sonhos, deve ter percebido que era possível trocar o altar pela tela, podendo nela projectar a realidade que quisesse, inclusive a sua.

Uma tela que era (e continua a ser) tábua rasa, a explorar, para este realizador norte-americano, de raízes italianas. Podia pintar o que quisesse, na tela. De imaginação larga, criou sucessos inolvidáveis. Criou, com isso, também, aquilo que muitos gostariam de ter – um cunho pessoal, uma marca. Esse sinal está igualmente na música que decora os seus filmes. Sim, Marty, como os amigos lhe chamam, tem, sem saber, essa faceta de padre – casou, da melhor forma, os seus filmes, com as suas músicas de eleição.

Quem atenta julga até que as faixas são feitas à medida, qual alfaiate, para a trama, tal é a oportunidade e a coincidência (pensada). Em Casino (1995), numa ‘dança’ feita a dois – De Niro e Pesci (ou melhor, Ace e Nicky) – aquando da chegada do último ao casino gerido por Ace, o encaixe de ‘‘Takes Two For Tango’’, na voz de Ray Charles é tão aprazível, quanto a marcação de Tony Bennett, no começo de Goodfellas (1990), que, com ‘‘Rags to Riches’’ emparelha com a narrativa de descrição inicial, outros dos pontos fortes de Scorsese.

Martin Scorsese

Tão ou mais importante que o papel dos acordes em inolvidáveis pautas é o papel do silêncio. No clássico Taxi Driver (1976), a história desembrulhada por De Niro e Jodie Foster tem muito pouco da avalanche sonora que distingue as peças de Scorsese. Aí o destaque maior vai para a opção pelo som minimalista que acompanha as cenas, num instrumental, que, de outra forma, também casa correctamente com o desenrolar da história. Em Hugo (2011), numa tentativa de aproximação ao cinema contemporâneo, Marty adapta a fórmula usada mais de trinta anos antes em Taxi Driver: pega maioritariamente na suavidade da música francesa, encaixando-a, de forma exacta, na trama e alterna-a infalivelmente com o instrumental dirigido pelo experiente Howard Shore.

Na verdade, Hugo é o seu filme mais distante de outras das suas marcas preferidas de rodar – a máfia, sempre presente na realidade dos seus parentes próximos. Estes filmes, que mostram personagens com ‘‘coração de pedra’’, em que há gente ‘‘que se alimenta de ira e quer magoar as pessoas’’, como o próprio disse, numa entrevista, são o espectáculo ideal a explosão de outra das suas loucuras – o rock. O género, que o distraiu aquando da adolescência, remete para ‘‘músicas antigas’’, que desfilam ordeiramente pelas suas obras. De tal forma, que não se franze a testa, ou se tenta ensurdecer os ouvidos, quando se escuta, enésimas vezes, os Rolling Stones a actuarem na composição dos seus contos. Lá estão eles, em crescendo, depois do tal silêncio inicial, em The Departed (2006). ‘‘Gimme Shelter’’ é, aliás, é a música que entoa este texto – está presente em quatro das suas narrativas.

Como é versátil, até com o requinte musical, Marty! Em The Aviator (2004) toca também nos blues, passando em revista clássicos dos anos 20/30. Porém, a sua ligação à música vai para lá da linha. George Harrison: Living in the Material World (2011), Shine a Light (2008), Eric Clapton: Nothing but the Blues (1995), ou The Last Waltz (1978) são três produções, nas quais o realizador teve dedo, como produtor executivo, ou director, mostrando o mundo dos Beatles, Rolling Stones, de Eric Clapton, ou até do final dos The Band, talvez como projecção do que poderá vir com o anunciado (mas longínquo) Sinatra, sobre Frank, naturalmente. A música, nele, é puramente isso. Música. É tão simplesmente ela que lhe ‘‘dá as imagens’’ para os seus filmes. A música torna-se parte da ‘‘transformação química que acontece com as pessoas, a todo o instante’’.

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