Adérito Almeida, empresário de restauração e conselheiro de Donald Trump

A retoma da economia, o novo normal, a falta de turistas, as preocupações e as esperanças: o penoso despertar da restauração em Portugal. O Repórter Sombra foi auscultar os bairros típicos de Lisboa. Parámos na A Tasca do Adérito, em Alfama.

Ó meu amigo, isto não está famoso e a culpa é do vírus dos chineses ou lá o que é. Atenção, isto era um estabelecimento que sim senhor. Até dava gosto. Antes da pandemia tínhamos a casa sempre cheia. O turista estrangeiro ficava maluco com o nosso pastel de bacalhau. Não há estrangeiro que tenha visitado Lisboa e não tenha vindo provar os pastéis de bacalhau do Adérito. Sou eu que lhe digo: a culpa desta crise é dos chineses. Na minha ideia isto só lá vai com a exterminação desses bandidos. Era tirar-lhes aquelas espetadas de insectos e os gajos faleciam à fome. O chinês é um gajo que é pequenino e amarelo para se confundir com um Minion, mas é perigoso, está a ouvir. Aquilo é tudo uma camuflagem para enganar as pessoas. Parecem fofinhos e tal mas só querem é escangalhar o mundo. Mas eu já os topei. E eles na televisão não falam destas coisas, encobrem a verdade. Andam mas é todos a mamar por fora, que eu bem sei.

Quando me dizem: “ó Adérito, isso não é bem assim, pá.” É, é, meus amigos. A mim ninguém passa a perna. Eu falo com muita gente, está a perceber. Eles vêm do estrangeiro com certas manias mas eles ainda não chegaram e eu já os apanhei. Oiça, A Tasca do Adérito era conhecida internacionalmente. E mais: o presidente Trump era um cliente habitual. Sim, sim, o presidente lá da América. Gostava muito de vir comer o nosso caldo verde. Estacionava o avião lá deles no aeroporto da Portela e apanhava um táxi até aqui. Com ele é que os chineses não brincam. E digo-lhe outra: tudo o que ele sabe fui eu que ensinei. Você veja a classe do homem nas conferências de imprensa. Uma vez virou-se para mim e disse em americano: “ouve lá, ó Adérito, gosto muito da forma como falas com os clientes ao balcão.” De maneiras que daí até ele adoptar esta postura corporal foi um saltinho. Aquele estilo elegante de meter o corpo de lado e o cotovelo em cima do palanque enquanto discursa está a ser trabalhado por mim há muitos meses. O próximo passo é ele deixar crescer bigode, usar um palito na boca e um pano ao ombro. Mas vamos com calma, uma coisa de cada vez. Vão vir muitos líderes mundiais para aprender comigo. É certinho.

E pergunta o meu amigo porque é que o Trump me escolheu para ser o seu conselheiro. É muito simples: eu trabalho com todo o tipo de estrangeiro. Eu já vi muita coisa na vida, meu amigo. Outra: eu vejo muitos filmes americanos, eu sei como é que funciona aquilo ao nível da justiça e tudo. Os gajos lá têm sempre uma dupla de polícias e um deles é gordo derivado dos donuts, hã. Tenho uma vasta experiência internacional, eu tenho mundo, meu amigo. E os americanos gostam de qualidade. Primeiro foi o cão de água português do Obama, agora eu. E porquê? Porque os gajos não são burros, pá. Os gajos topam, não há hipótese. Isto é só para você ver de que é que é feito aqui este menino. Vamos lá a ver uma coisa: por acaso o presidente Trump já foi contaminado pelo vírus? Exacto, não foi. Graças a mim. Aquilo de ele tomar hidroxicloroquina foi uma sugestão minha. Mas isto é uma coisa que poucas pessoas sabem, porque os gajos lá não deixam sair informações confidenciais ou lá o que é. Aquilo mata tudo o que é vírus. É comprovado e tudo. Quer ver esta? Tenho um primo meu, o Vítor, que um dia acordou de manhã e gritou para mim: “Ó Adérito, salva-me que estou a ver tudo cor-de-rosa.” E eu disse: “Vítor, tu contraíste o vírus, digamos, da homossexualidade. Toma imediatamente dois ou três comprimidos de hidroxicloroquina enquanto isso ainda está no início, não deixes isso avançar, pá”. O meu amigo adivinha o que é que aconteceu? Aquilo passou-lhe. Não falha.

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