Cinema Paraíso

Sicília em tempos esquecidos e a guerra acontecia lá longe. Uma terreola com nome engraçado onde a vida repousava como se tudo fosse parar no tempo. Tudo regido pela mentalidade religiosa e machista. Os homens de um lado e as mulheres do outro sendo que as actividades estavam bem diferenciadas. É este o cenário onde se passa a acção principal que tem como protagonistas Totó, o nome a que Salvatore respondia e Alfredo, o velho projeccionista do cinema da vila, o local de lazer e de descontracção duma vida dura.

Salvatore vive em Roma e é um homem bem-sucedido, um cineasta de sucesso, mas com uma vida pessoal cheia de remendos que não encontram nem celulose nem gelatina que os ajuste. Estamos em 1980 e a mãe telefona ao filho para lhe dar uma notícia desagradável: Alfredo tinha acabado de falecer. Há mais de 30 anos que ele tinha partido dum passado que queria esquecer e por isso saber que o seu grande mentor já não existia, aviva-lhe as memórias e o filme da sua vida fica activo.

Totó é um menino irrequieto que espera o pai que nunca voltará. Morreu na guerra e ele acaba por o descobrir quando está de volta das bobines no cinema. Alfredo é uma pessoa peculiar, mal-humorado e brusco, mas liga-se ao garoto como uma tábua de salvação. Ele não tem filhos nem o menino tem pai e assim a parceria é perfeita. O mundo do cinema é uma perfeita evasão e Totó quer aprender tudo sobre a arte.

Os filmes são censurados pelo padre que obriga a cortar todos os beijos e os contactos que possam existir entre homens e mulheres. Um protótipo dos tempos de escuridão que se viveram naquela ilha e no mundo em geral. Uma moral podre, mas continuada. O menino é apenas uma criança e nada sabe da vida que lhe será dura e madrasta em vários aspectos. Afinal ela tem tanto de negativo como de sonhos e esses serão eternos.

Salvatore recorda tudo e revê a sua infância de felicidade como um motor para a sua carreira. Alfredo foi a pessoa mais importante da sua vida e a dor que o assola é enorme. Nem mesmo quando o cinema ardeu e Alfredo ficou cego o amor esmoreceu. Com Alfredo tudo era magia e resolvia-se sempre com as deixas dos actores. Uma vida que teimava em ficar infantil e fácil.

Os risos e as lágrimas acompanham todas as cenas e o sentimento de revolta e de impotência acompanham a jornada. Um filme onde se entende bem a diferenciação entre as pessoas e a hierarquia que a mesma permite. Por mais pobres que sejam, os rapazes ainda podem frequentar o cinema, o que só irá acontecer com as meninas bem mais tarde.

Totó continua a estudar e apaixona-se por uma mulher que nunca poderá ser a sua companheira pois pertencem a mundos diferentes. Agora é o projeccionista do cinema, mas continua a não ser ninguém. O napolitano, que ficou rico depois de ganhar a lotaria, pagou a reconstrução e alegria voltou à vila. No balcão cospem para a plateia e tudo pode acontecer quando se juntam tantas pessoas diferentes.

Esta película é uma crónica de costumes que coloca um leve sorriso, se bem que amarelo, no rosto de quem a viveu. Tempos duros que são retratados com uma beleza singela e jovial que tapam a dureza daquelas vidas e reflectem um fascínio que a todos encanta. A infância será sempre um porto seguro.

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