Um e o outro

Um vulto escondido que procura proteger-se do desconhecido. A consequência é uma guerra em algazarra com uma procura desesperada e muito curta. Onde está ele? Para onde fugiu? Onde raio se enfiou ele hoje? Claro que não era a primeira vez que isto acontecia e no fundo sabia que ele estava num canto da casa a observá-lo. Abstraiu-se e arrumou-se  depois de arrumar o que com ele trazia, a começar pelo cansaço. Mergulhou no sofá e esqueceu o dia que se preparava para terminar.

É sempre um risco mas a porta fechou-se na convicção de que ele, pequena criatura, não se iria lançar num mundo que desconhece. Porque razão faria isso o felino se nem ele humano o fazia? O instinto catapultava a vontade de partir, um e outro, mas se ele tinha ali tudo, que melhor poderia encontrar lá fora? Sabe que há outros como ele, habituara-se um a os ver da janela fechada e o outro na vida aberta. Falavam a sua língua mas não sabia o que lhes perguntar e qualquer ideia parecia idiota. “Desculpe, tenho tudo mas tudo deixei, onde devo ir?” ou um prosaico “meow”. Não se vislumbrava uma única ponta de racionalidade que pudesse resultar numa resposta a tais perguntas.

Um já deitado como o outro, ambos de olhar semicerrado, sentado no sofá, deitado no esconderijo. Sentem as vibrações nas paredes em volta a provocarem reacção rápida. Pescoços curvam-se e ele pula em direcção à porta. Entra na casa mais um odor que já todos reconhecem. Ela junta-se à casa e vem dar vida à rotina, exemplo de apego humano desnecessário à paz felina dos olhos que no escuro a contemplam. Será possível a inveja animal? Mesmo que o fosse, e não parece ser, os chamamentos de falsa sereia não encantam o suficiente para para se mostrar. Resignados, os humanos concentram-se um no outro e os olhos brilhantes ficam no escuro de vigia. “O gato hoje não quer nada connosco…”

O tempo vai acontecendo e o repouso vai cansando. O tilintar de pratos e talheres já se silenciou. As ondas de som emanadas da janela mágica já são melodia nocturna, cantares de sonhos que se adivinham. O cansaço pesa nos humanos e juntos se deitam. O silêncio mergulha na casa de mãos dadas com a escuridão. O preto breu que é recortado pela luminosidade do olhar felino. O gato acorda e sapateia o soalho de madeira com pancadas secas e ritmadas, cada garra a tecla de um piano. O caminho é certo e pré determinado. O objectivo primeiro fica à distância de um salto prontamente executado sem despender qualquer índice de energia. Esta está a fica fraca e reclama medidas. O patinhar na superfície viva e irregular da cama dos humanos é prontamente alvo de injúrias, ainda que mansas. “A dormir o dia todo e agora é que despertas?” A pergunta é naturalmente imperceptível para o felino, mas revelou-lhe algo importante, “o meu dono está acordado.” Não estava mas isso resolveu-se com o cantar de miados acoplados a matizes de gemidos. Já ninguém ali dorme. O olhar no escuro fala com os humanos. O homem levanta-se e liga luzes, caminha para a cozinha, faz o chão estalar, abre e fecha um armário, depois uma gaveta. Há som onde há pouco havia silêncio. O felino venceu e a tigela está cheia  e vibrante de odores. Delícia!

Com o homem de novo prestes a adormecer, a refeição finda convida a rápida digestão no conforto térmico emprestado pelos donos. Novo salto agora de barriga cheia e o transfere-se para ilógica posição entre dorsos ou pernas. Um cantinho ali conquistado e o silêncio por fim parece recair sobre todos. Porém, ninguém gosta de adormecer sujo e o som de lambidelas e massagens no pelo sucedem-se irritantemente. Um valente pontapé por baixo dos lençóis causa um pequeno tsunami e o gato quase que voa. Mensagem recebida. Poucos segundos depois, o gato apresta-se a terminar a sua sessão de auto limpeza. E então sorri, respira ruídos e vibrações que se intensificam quando uma mão pousa no seu pelo. E assim adormecem.

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