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Volúpia

Abro a gaveta, num gesto mecânico. Num ápice, os dedos recolhem ao toque inadvertido de uma peça que não querem mais sentir. Infiltrada por entre as demais, ali está ela, renda e cetim, atirada num momento de dor para o fundo da gaveta, que a ainda dúvida não permitiu um desfecho definitivo e final. Soterrada, parece querer vir à tona, na imitação dos pensamentos que me vou negando. Amor, amor… perdoa-me que ainda te chame assim.

Que ousadia usar esta palavra, mas foste tu que me ensinaste como o sentimento, que poucos têm a felicidade de sentir, surte efeito em quem recebe a sua bênção. Há corpos fechados, receosos de sentir, que não querem vislumbrar a luz e muito menos saber que certos momentos são efémeros. Não! Antes não saber como é do que depois verter dores que se colam ao corpo e o roem de tanto sofrimento. Outros são bafejados por uma lucidez súbita que os ilumina e arrecada em memórias sorridentes.

Lembras-te do dia em que a comprei? Olhei-a com a malandrice que adivinhava nos teus olhos, nas tuas mãos. Tirei foto, naquele provador absolutamente desinteressante. Enviei duas ou três fotos, cada uma com sua cor. Enviaste-me mensagens de fazer corar. Dei-te conversa. Provoquei-te. Escolheste a bordeau. Trouxe a preta. Sabia como gostavas que eu te contrariasse. E eu, que adorava ver-te debatido entre o óbvio desejo físico e a inteligência subtil das nossas, só nossas palavras, sorria. Fazias-me sentir inteiramente viva. Plena, de corpo e alma.

Recordo a especial sensação de que vivi, quando me tocaste. Um beijo, singelo, no pescoço, mas o choque que senti percorreu-me o corpo e o meu gelo derreteu-se como as calotes que se desagregam por sentirem um imenso calor. Foi uma brasa, louca e desenfreada, que me levou a desejar o teu corpo, um quente que jamais pensei existir mas que teimo em repetir. O preto, aquele que escolhi para te contrariar e que te fez delirar em mundos que inventámos, cobriu-nos de intimidade. Éramos bonecos de uma vida que estava prestes a começar.

Não resisto a vesti-la. Desliza-me pelo corpo ausente de nós, contorna-me as formas, suavemente, como se fosses tu, na subtileza de pontas de dedos tão inseguros. Recordo quando nos tornámos nós, depois daquele tímido beijo em forma de trégua, terminando a dois aqueles períodos em que desistimos de lutar, em vão, contra uma vontade que nos inundava. E ao beijo hesitante que me deste, a medo, porque sabias que eu não queria, não estava preparada, o passado ainda me pesava a memória e a dor, eu respondi-te com um beijo carregado de amnésia de tudo. Esqueci-me da menina magoada, e deslizei, mulher segura, por ti.

Então, descobri quem eu era, a criatura voraz que estava encerrada numa capa puritana de ausência de sentir. Medo de ser feliz, de ouvir palavras que me dessem a volta à cabeça, vontade de te segredar que eras o tal, o que encontrou a minha chave, aquela que teimava em não querer revelar o paradeiro. Ingenuamente olhámo-nos e soubemos como ler as nossas almas que suplicavam por ser uma só. Uma fusão de sentidos em que as emoções, perenes ou caducas, comandavam.  A menina passou a mulher e o rapaz tornou-se homem e amante com manhas e técnicas de enlouquecer.

E tu olhaste-me, num instante de revelação, como se estivesses pela primeira vez com uma mulher. E eu, menina-mulher, olhei-te numa ferocidade que julgava já perdida. Afugentámos todos os fantasmas, no agitado tirar da roupa. Percorremo-nos, mapeando caminhos de prazer. Alternámos os toques, suaves e firmes, auscultámos respirações, usando-nos da doce tortura. Os nossos olhos a brilhar no escuro da noite, o registo visceral de contrações e suspiros. Os corpos ondularam-se, oferecendo-se e tomando-se, perdendo-nos de nós . E quando a realidade voltou, o sorriso calou as bocas das ousadias ditas e dos vorazes beijos trocados.

Silêncio tão perfeito que embalava a pureza do momento. Fui tua e sabia que nunca o deixaria de ser. Os teus dedos, sábios e aventureiros, percorriam o carreiro de prazer que conhecias de outras estradas que não a minha. Sem saber como, perdi todos os pudores que me haviam incutido, para te explorar até te conhecer de cor. Um mamilo que se levantava e um membro que respondia, com tanta nobreza, ao urgente chamamento fisiológico. Desconhecia-me mas tu eras a rota certa para seguir, o rumo que apelava para ser descoberto. Segui-te.

Se o paraíso existe na Terra, terá sido criado naquele preciso momento em que te saboreei, quando a tua língua atrevida inventou percursos no meu corpo, que afinal era nosso. Arrancaste-me o trapo que timidamente me cobria, com pressa de sentir o que ainda estava por ser descoberto. Viste como eu era e deixaste-me sentir o que julguei impossível. Onde é que eu estava antes de me mostrares como voar?

Espasmos de prazer elevaram o meu corpo, o que ignorava a sua sensibilidade selvagem e o teu olhar, penetrante e doce, no meu mais íntimo, souberam como desfalecer, num tempo que congelou. Jamais acreditaria nas asas que me desenhaste, com rigor e precisão, as que tocaram o céu depois de estares em mim.  Sim, senti tudo e sei que me fizeste mulher inteira e sem tabus.  O teu cheiro, o que me gravaste na pele, continua em meu redor e abraça-me amiúde.

Fecho a gaveta. Suspiro. Sento-me na cama e uma inusitada vergonha inunda as minhas faces. Sinto-me corar e tão intensamente que fecho os olhos.  Sinto-te na minha mão, a palpitar intensamente e todas as barreiras e negações se dissipam de vez. Tocas-me e o véu de recusa abre-se para te receber em todo o teu esplendor. Somos os que se completam e flutuam, ritmados, em movimentos que abrem novos horizontes e impossibilidades que desmistificamos.

Adormeço, exausta deste amor solitário, deste esforço de memória cada vez mais indelével. Quando acordo, a cama plena de vazio lembra-me que não estás. Pergunto-me que é feito daquele ser cujo desejo se libertava dos poros, sem filtro, sem travão. O que te aconteceu, a ti, ser de palavras que me inebriavam na força de viver e sentir? Lembras-te, meu amor, quando nós as trocávamos numa conversa sem fim, e depois, quando elas se escusaram, de tão insuficientes face ao que sentíamos, nos tomámos, enfim?

Eu vinha duma estrada de medo.  Tu também.  Na vontade assustadora do querer mais e mais, no aterrador susto de não saber parar este turbilhão intenso de corpos e almas e palavras, nos planos de solidão segura que foram postos em causa, a mim sobrou-me a vontade de o vencer. A ti, pobre cobarde, sobrou-te apenas o paralisante medo, aquele que te falhou de vida e de saber como a abraçar. Foste o meu motor, o clímax inesperado que se derreteu de vez, quando a verdade soou de frente. Ignóbil!

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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