Uma História Simples

Talvez a história deste filme na minha vida tivesse que esperar todos estes anos para ser contada; e talvez tudo tivesse que acontecer tal qual aconteceu no dia de hoje para me reencontrar com Uma História Simples, de David Lynch.

Vi-o há muitos anos, e julgo ter ficado a meio, mas nem disso estou certo, tão ténue foi o sentimento que me ficou da história do velho que atravessa dois estados e 600 kms, num corta-relvas, para visitar o irmão com quem não falava há 10 anos, depois de este ter tido um ataque cardíaco.

Cheguei à Marinha Grande e aterrei na 100 Nome para uma pizza: antes de abandonar o restaurante por ter aguardado 20 minutos sem que ninguém tivesse vindo anotar o meu pedido (já tinha escolhido a pizza JR, grande, e uma água), vi, entre o choque e a raiva, a humilhação a que Trump tentou vergar Zelensky. Removeram-se-me as entranhas perante o ser (a par de Putin) mais execrável, deplorável, amoral e desumano que coincidiu com o meu tempo de vida. Levantei-me e saí, incomodado perante o que a televisão do restaurante mostrava, a desculpa perfeita por trás da falta de atendimento (tanta gente para uma só empregada, coitada).

Entrei na casa vazia pela primeira vez em muitos, muitos anos. Silêncio. Frio. Escuro.

Ligo a televisão e procuro alguns filmes na box. Paro neste, o mais linear e pacífico do inigualável homem que nos trouxe Twin Peaks (que nunca vi). Só me apetecia uma história simples, uma janela para o universo da infância, o mundo de antigamente, as estrelas no firmamento que não ofendem e nos convidam ao sonho, viajar para um lugar seguro, ao abrigo de triste cena que não me saía da cabeça e mantinha o aperto na garganta.

E desta vez vi até ao fim. Fui vendo, agarrando aquela bonita história para esquecer, e fui-me entregando à história simples que eu queria que o mundo fosse. Não necessariamente alegre – o filme é triste – mas simples, a redenção, a persistência, a poesia baseada numa história real. E gostei, muitos anos depois gostei, demonstrando assim que quem fomos no passado pode ter pouco ter a ver com aquele em quem nos tornámos, que somos muitas coisas ao longo da vida e que a única que mantemos do nascimento até à morte é o nome, e mesmo esse, foi-nos atirado, cabendo-nos apenas dar por ele – se nos tivessem colado outro à nascença teríamos sido pessoas muito diferentes?

Uma História Simples é um filme tão bonito que a sensibilidade com que Lynch o filma entra em nós, que vemos tudo pela sua lente (que em 1999 as filmagens aéreas ainda utilizavam helicópteros – os drones eram ainda uma miragem) e pelo olhar profundo e lacrimejante de Richard Farnsworth. Uma história difícil de acreditar, tal como o mundo de hoje; ambas verdadeiras, os dois pólos da humanidade – o sonho e a miséria.

Perguntava-me a Vânia há um mês Qual bom senso? quando lhe dizia que ele – o bom senso – não se consegue legislar nos dias de hoje, e concluía Se calhar estivemos mal habituados a estes 70 anos de paz quando na história do mundo tal nunca aconteceu. Se calhar habituámo-nos a viver numa excepção e tomámo-la pela regra. É assustador, mas talvez ela esteja mais próxima da verdade do que a minha vontade de acreditar na bondade da humanidade.

Uma História Simples era do que eu precisava esta noite e consegui trazê-la para a minha vida. Numa casa vazia como há muito eu não a sentia. Nunca sabemos quando nem como uma obra nos vai atingir, tocar, abraçar, como nunca sabemos a pessoa que vamos ser amanhã. Apesar da miséria humana que é Trump e de ter esperado 20 minutos na 100 Nome só para poder assistir à cena e assim me decidir, chegado a casa, por Uma História Simples, apesar de tudo isso, hoje vou para a cama apaziguado. Não com este mundo, mas com a possibilidade de ele mudar: eu mudei mais de vinte anos depois de ter visto a história pela primeira vez,

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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