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Um Código: o Lenço Alentejano

Desvendar a cultura alentejana

Quando falamos das diferentes regiões do nosso pequeno/grande país, um dos aspetos que frequentemente descreve os povos e os seus costumes é o seu traje. Hoje falamos de Lenços – não para assoar, mas para cobrir pescoço e cabeça. Para matar a curiosidade, fomos falar com a Sr.ª Fátima em Serpa.

O lenço alentejano tem sido usado desde sempre por quem tem de aguentar as durezas do trabalho do campo, mas servia para muito mais do que isso. Para saber mais, falamos com a Fátima, prestável senhora que podemos encontrar numa das poucas lojas de artesanato, no centro da cidade alentejana de Serpa. Ela recebe-nos com um sorriso simpático, enquanto explica os aspetos desta temática, que teve de pesquisar quando foi montado um cortejo etnográfico que se queria fiável, fidedigno e que, desde então, acontece anualmente nas festas da cidade.

A princípio, a informação não é inédita. Vamos ouvindo que o lenço de algodão era usado pelos homens do campo, ao pescoço, para limpar o suor e proteger a pele do sol e insectos. No entanto, o lenço era também indicador do escalão de cada trabalhador. Assim: ceifeiros usavam lenços de quadrados ou com pintas, usualmente num fundo branco, enquanto feitores e almograves usavam lenço branco ou preto com uma risca preta em toda a volta. Rapidamente, ao longe se poderia constatar o trabalho e posição de quem se via, semelhante à forma como as divisas militares nos dizem o escalão de cada oficial.

As senhoras tinham uma paleta de lenços mais variada, dependendo da altura do ano e trabalho. Neste caso, para a colheita da azeitona eram postos lenços de cor mais escura e com alguns motivos florais, enquanto, durante a ceifa, os panos eram de cores mais claras e tecido mais leve. As senhoras em luto, especialmente as viúvas, usariam um tecido grosso e muito negro o “merino negro”.

Assim era pelo menos em Serpa pois, como explica Sr.ª Fátima, cada terra tinha seu “uso” ou as suas maneiras. No caso das raparigas ou “campaniças” (raparigas que vinham dos montes da Serra), o lenço era ainda mais simples, quase branco – um lenço de assoar, como troçavam as pessoas da cidade.

É certo que, de pontas bem dobradas e caçadas junto das orelhas, as mulheres desta terra lá iam combatendo o frio, a chuva e o calor do sol. Menos quando iam “caiar”, altura em que davam um nó às duas pontas do pano que enrolavam à volta de toda a cabeça, atando-as no cimo da nuca.

Hoje em dia, o uso do lenço é praticamente inexistente à excepção de algumas raparigas na praia ou dos jovens que ingressam nos grupos de música coral, mas, num tempo que já lá vai, o lenço alentejano era um código bonito e colorido sobre vários aspectos sociais, laborais, das origens e maneiras, que esclarecia os mais atentos.

Enfim, do modo que a moda se comporta poderemos ver um revivalismo do lenço alentejano em alguns anos, quem sabe? É importante compreender o verdadeiro significado desta peça da cultura e tradição.

Despedimo-nos da Sr.ª Fátima, saindo da loja, deixando-a entregue aos artigos que tanto cativam quem passa por cá.

Assim é, no Alentejo.

André Afonso

Nasci em '95 em Serpa, Alentejo e, por isso, gosto das coisas que se alargam e duram como as searas e vivo bem a brandura quente do sol de Verão ou o rigor do frio de Janeiro. Sou Agrónomo, mas um pouco mais do que isso - gosto de investigar a cultura destas gentes, seja a música ou as excelentes mil maneiras de aproveitar utilizar Pão na cozinha!

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