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ContosCultura

Um Acto Inusitado

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Se algum dia escrevesse uma nota de suicídio, seria qualquer coisa como isto:

“Desisti de vos aturar. Façam o favor de ir bardamerda.”

E fá-lo-ia – escrever a nota, quero dizer -, apenas e só por consideração à senhora que vem cá a casa fazer a limpeza, não fossem pensar que fora ela a responsável. Não que lhe guarde grande afecto, conheço-lhe o nome – Silvana? –, sei que não limpa nos cantos e abusa dos detergentes com a clara intenção de transmitir uma percepção de limpeza inexistente. Tirando isso, não sei mais nada. Mas… ainda assim. É escusado arranjar complicações a quem não nos fez mal.

Não vejo outra razão para pôr termo à própria vida que não seja o de alguém se querer livrar de aturar os energúmenos que nos preenchem os dias. Por essa razão, posso até aceitar que se faça, que há dias em que esses seres nos exasperam tanto que a sua morte não seria suficiente, não viessem depois do Além continuar a atormentar-nos os dias.

Ocorreu-me isto a propósito da notícia que li relativa à morte, ou melhor, ao suicídio de uma conhecida estrela de televisão. Uma mulher na casa dos quarenta, linda e sensual, que nos entrava pela casa sempre com um sorriso rasgado e uma imagem de fazer inveja às miúdas de vinte. Não sabendo mais nada, diríamos pelo semblante e pela postura que seria feliz, fazendo crer que a genética havia sido sua amiga e colaborara, não sendo necessário esforçar-se para manter um corpo de fazer inveja.

É raro ouvirmos notícias de suicídios, a menos que sejam de pessoas famosas e só porque fica difícil esconder o acontecimento. Toda a gente sabe que existe um acordo tácito entre os meios de comunicação e as autoridades para que não se divulguem estas notícias, tendo em conta o fenómeno de mimetismo existente. Ao que parece, alguém que possa andar com essas ideias, ganha coragem para levar o intento adiante se ouvir que outro o fez. A divulgação de casos de suicídio faz aumentar o número de suicídios nos dias seguintes. Isto é um facto. E, por isso mesmo, quase nunca são divulgados.

O caso da notícia que li é cheio de contornos bizarros. Não apenas por ser uma figura pública, com direito a clube de fãs oficial e tudo, mas porque não havia como escondê-lo. De forma nenhuma. A própria vítima anunciou o seu suicídio. Não, não disse “vou-me suicidar”. Isso é o que fazem as pessoas que não se querem mesmo suicidar, na esperança que alguém as detenha. O que ela disse foi “suicidei-me”. Bem sei que, à partida, soa estranha a afirmação, tendo em conta que os mortos não falam. A explicação vem a seguir. A vítima – poder-se-á chamar vítima a quem se auto-mutila? é uma boa questão, mas avancemos – a vítima, ou não fosse actriz de profissão, montou todo um enredo dramático tendo sido a primeira a dizer ao mundo que se suicidara. Honra lhe seja feita, foi bastante original. Não esperou que a encontrassem, não fosse dar-se o caso de o fazerem num estado de decomposição já avançado e uma diva, mesmo depois de morta, espera-se no seu melhor.

O que se passou foi muito simples. Recorrendo às redes sociais e à possibilidade de se agendarem publicações com a antecedência que se desejar, a vítima programou a publicação que daria conta da sua decisão, assegurando que a mesma havia sido realizada muitas horas antes, sem possibilidade de interrupção por parte de terceiros. O texto seguia acompanhado de uma foto da actriz. De pé, entre árvores e flores, pernas semi-afastadas, braços e rosto erguidos em direção ao céu, como quem agradece ao universo. Nu total. Estranhamente não foi a publicação censurada pela plataforma em causa, já vi acontecer por menos. A carta de despedida, ou nota de suicídio, como lhe queiramos chamar, tendo sido publicada pela própria nas redes sociais, não era segredo para ninguém. Foi transcrita em quase todos os meios de comunicação social – excepção feita para os dois ou três títulos que ainda sabem o que é jornalismo e o praticam. Nas televisões, foi lida por uma voz grave com música de fazer chorar as pedras da calçada em fundo. Locução masculina, claro está, que a voz da dita senhora era por demais conhecida para que se lhe pudesse dar outro tom. Dizia assim:

“Assim como vim ao mundo dele sairei. Não trouxe nada e nada levarei. Esta imagem que vêem já não existe, a sua essência reside agora noutra dimensão. Lembrar-se-ão de mim assim, e assim ficarei para todo o sempre. Não verei o meu corpo enrugar e envelhecer. Não perderei a memória nem a capacidade de decisão. Serei eternamente jovem. Serei eternamente eu. Sou grata ao universo por tudo o que me deu. Se houver no mundo alguém que me ame, estou certa que entenderá. Até sempre.”

Talvez seja por não a amar que não entendo.

Depois disto, encheram-se páginas e páginas sobre o sucedido. Gastaram-se horas de emissão a dissertar sobre cada pormenor. Fizeram-se directos e entrevistas com familiares, amigos, conhecidos, o senhor da padaria que ela frequentava, a senhora do prédio da frente que no início da entrevista fora apresentada como alguém íntimo, mas que se veio a verificar que lhe havia dirigido a palavra uma única vez, no dia em que esbarraram por falta de atenção de uma e de outra. E disto se faz hoje o jornalismo.

Especialistas foram ouvidos. Psicólogos, sociólogos e filósofos. Cada qual na sua área teceu um rol de teorias, suposições e considerações sobre este caso. Ao longo de uma semana caiu por terra a crença de que não se devem noticiar suicídios para não gerar comportamentos de imitação. Só não ficámos a saber quantos suicídios se verificaram no período em que durou este circo, porque, já se sabe, não se podem noticiar suicídios.

Psicólogos, psiquiatras e neurocientistas desdobraram-se em explicações sobre a mente humana e as razões por que alguém decide pôr termo à vida. Que mecanismos mentais acontecem para que se chegue a um acto tão extremo.

Os Sociólogos abordaram a questão da pressão social para nos mantermos jovens ad eternum e discorreram sobre as implicações que essa pressão exerce, principalmente nas mulheres. É certo que também os homens sofrem com o fenómeno de, de há umas décadas para cá, se ter interiorizado que temos de ser lindos, firmes e deslumbrantes para todo o sempre, sob pena de sermos colocados na prateleira e escondidos dos olhares do mundo.

Os filósofos elucubraram sobre o mundo virtual, a forma como as nossas vidas estão e estarão condicionadas por este fenómeno massivo e, aparentemente, sem volta. Que seres humanos nos estamos a tornar? Quem seremos no futuro? etc., etc., etc., que já se sabe que os filósofos são pessoas que trazem mais perguntas do que fornecem respostas. Até que ponto este não terá sido para esta actriz, um último acto, o derradeiro, o digno de um óscar que nunca chegou.?

Não chegou a ser claro como o fez. Especula-se entre a ingestão exagerada de comprimidos e os bicos do forno ligados toda a noite, assegurando uma morte pacífica. É certo que terá sido alguma coisa que asseguraria a inexistência de marcas no corpo, que se a intenção era sair deste mundo quando ainda se encontrava linda e deslumbrante, não iria deitar tudo a perder.

Como é normal, esta mesma pessoa, em tempos alvo de inúmeras críticas e polémicas, tornou-se a partir daquele momento a melhor pessoa do mundo. A mais gentil, a mais generosa. Subestimada nas suas artes performativas, merecedora de todos os elogios enquanto profissional e colega. Certo é que não há forma de se saber a verdade sobre alguém. Em vida, cada um mascara-se como quer. Na morte, são os outros que nos mascaram. Seremos sempre uma incógnita.

Encontro-me no mesmo registo temporal desta mulher e percebo as suas dores. O que nos diferencia é, no entanto, a perspectiva: as minhas rugas e a minha flacidez são minhas, ganhei-as eu com os anos que já vivi e o que passei, ninguém o passou por mim e, por essa razão, estou-me perfeitamente cagando para o que os outros possam pensar. Não vivo da minha imagem, nem do meu corpo, vivo da minha cabeça e da inteligência e perspicácia que me foram concedidas à nascença. O que os outros querem de mim é coisa que não me diz respeito. Eu sei o que quero dos outros e não descanso enquanto não o consigo. Já me chamaram cabra. E também já me chamaram puta (no sentido de ser falsa e interesseira, não no sentido de me vender ao prazer da carne). Se me chamassem puta com o intuito de fazer uso do sentido exacto do termo, seria parvo, tendo em conta que sou mais pessoa para cobrar e ainda ter eu o prazer do que o inverso. Não seria, no entanto, coisa para me apoquentar. Do meu corpo sei eu e dele faço e sempre farei o que bem me aprouver.

Não tenho vergonha ou pudor em admitir que me sirvo das pessoas para obter o que quero. Duvido que haja quem não o faça, embora poucos tenham a coragem de o assumir. São todos muito bonzinhos. Frases bonitas destacadas numa foto inspiradora é o que mais há por aí. É abrir as redes para ver publicações cuja legenda é “tão eu!” quando a frase que se lê diz: “o meu maior defeito é ser boa demais”. Chega a dar-me vómitos de tão entediante.

Por tudo isto posso garantir que, se algum dia for encontrada morta com uma nota de suicídio que não diga em letras garrafais “vão bardamerda”, então foi homicídio pela certa e alguém quererá desviar as atenções. Nem outra hipótese poderá ser colocada.

As discussões em volta do caso deixaram-me a pensar. Não no caso em si, que não conhecia a senhora para além das vezes que me entrou pelo ecrã, mas no facto de se considerar que uma pessoa não tem direito a decidir onde e quando morrer. É crime. E não estou a falar de eutanásia, essa devia estar considerada na Carta de Direitos Humanos. Estou a falar de pôr termo à vida porque sim. Porque se quer sair do mundo quando ainda se olha para o espelho e se diz “sim, senhora, fazia-te”. O que poderá haver de mais legítimo que o direito a vivermos como queremos e a não viver se for esse o nosso desejo? Afinal a vida é de quem?

Espero que lá do outro lado onde esta mulher possa agora estar, apenas se tenha arrependido de não ter mandado foder, na sua nota de despedida, todos os energúmenos com quem se cruzou em vida e que esteja a desejar que todos os iluminados enfiem as suas teorias, considerações e suposições onde o sol não brilha.

Quanto a mim, acredito que seria um profundo egoísmo privar o mundo da minha existência. Enfim, cada um sabe de si.

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Joana Kabuki
Há em mim um certo desassossego. uma espécie de formigueiro que me impele à criação. talvez pudesse ter sido um Professor Pardal, ou um Mr. Q., não se tivesse dado o caso de eu e a Física nos termos cruzado sem nunca nos termos visto. Quis o destino que encontrasse nas palavras o sossego para o que me desassossega e desse encontro se revelasse uma alma de escritora. Sim, eu disse que se revelara "uma alma de escritora", não disse que se revelara "uma escritora". Ainda não disse.

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