Trumbo – Em Defesa da Liberdade

Trumbo, um filme que tem mais a ver com o presente do que uma primeira vista poderia antever, conta a história de Dalton Trumbo (num magnífico retrato de Bryan Cranston), argumentista que surgiu em Hollywood na década de 30 e que foi relegado para a lista negra em 1947 por pertencer ao Partido Comunista. Contrariamente aos intérpretes, que não tinham como utilizar testas-de-ferro, Trumbo começou a trabalhar sob nomes falsos, tendo ganho dois Óscares: Férias em Roma (1953) e O Rapaz e o Touro (1956). O primeiro foi atribuído a Ian McHellan Hunter, fronter de Trumbo que – de acordo com o que o filme sugere – sempre terá reconhecido o mérito do amigo, tendo ele próprio mais tarde sido arrastado para a lista negra. Em 1993, a Academia atribuiu a Trumbo os créditos a título póstumo. Com o segundo filme aconteceu algo (mais) caricato: Robert Rich, o argumentista vencedor, pura e simplesmente não existia! Pela primeira vez na História, um Óscar não era reclamado. Em 1975, um ano antes da sua morte, o argumento foi creditado a Trumbo, no único Óscar por ele recebido em vida.

Hoje, em 2020, o que aprendemos com a História?

Pouco: a actual cancel culture abriu a porta à arbitrariedade dos critérios da corrente da moda, a qual se grudou ao politicamente correcto. Quando exigimos a perfeição, somos os primeiros a escorregar nela.

Já ponderei se deveria ignorar as obras ou, por outro lado, ignorar as atitudes de um artista e usufruir das obras “apesar” das suas atitudes (a título pessoal fazemos o que entendemos, contudo, defender que uma obra deixe de ser distribuída, vendida ou disponibilizada por uma instituição pública ou mesmo uma empresa, é diferente). Hoje, tenho que as duas atitudes não são incompatíveis: Elia Kazan é um dos melhores realizadores de todos os tempos, mas isso não me impele a defender as denúncias que ele fez perante a Comissão de Actividades Anti-Americanas. Poderia desenvolver as histórias de Lars Von Trier, Gabriel Garcia Márquez ou até de José Saramago que, enquanto sub-director do Diário de Notícias, esteve ligado ao saneamento de vinte e quatro jornalistas que exigiam mais pluralismo: nunca viu livros retirados (em democracia) por qualquer distribuidora. Foi censurado por Sousa Lara para um prémio europeu e essa censura foi amplamente condenada (e muito bem). Será que a actual corrente também pretende retirar os livros do Nobel português pelo tempo em que ele esteve no DN?

Hoje o boicote manifesta-se não só aos artistas (veja-se a dificuldade de Woody Allen em financiar o seu último filme) mas também às obras (retiradas). A tentativa de higienização da Arte, com distribuidoras a retirarem obras por estas retratarem temas de uma forma parcial põe a nu o absurdo a que chegámos: o caso da HBO ao retirar E Tudo o Vento Levou tendo, mais tarde, revisto a posição ao ceder novamente aos protestos que a retirada do filme causou, recolocando-o, acompanhado por um alerta avisando que o filme “nega os horrores da escravidão” de forma a mostrar que a realidade da escravatura não terá sido tão cândida; ou da BBC removendo um episódio de Fawlty Towers, por declarações atribuídas ao Major, personagem da série, atitude sobre a qual deixo a reacção de John Cleese, autor e protagonista da sitcom britânica: “O Major era um velho fóssil que havia sobrado de décadas anteriores. Não estávamos a apoiar as suas opiniões, estávamos a gozar com elas. Se eles não conseguem ver isso, se as pessoas são demasiado estúpidas para ver isso, o que é que se pode dizer?“.

Repito: Quando exigimos a perfeição, somos os primeiros a escorregar nela. Não sobraria ninguém.

Concordo com Pedro Mexia, de que “[a apreciação de] uma obra de arte não me vincula às ideias do autor”. Até ao momento, as retiradas de filmes têm sido casuais e não um movimento institucional. Vi há pouco tempo O Triunfo da Vontade e Outubro. A apologia do regime nazi e a glorificação do regime soviético. Seria triste ter que justificar não ser nazi nem pactuar com os gulags, e que tenho a liberdade de ver estes ou quaisquer outros filmes por razões que só a mim dizem respeito; com eles aprendi acerca do tempo que retratam. Conhecer o modo como a arte, políticos, etc… foram retratando o seu tempo é uma opção que quero manter intocável.

Voltando a Trumbo, de todos os defensores da moral que parasitavam à volta da indústria, Edda Hopper é a que é retratada do jeito mais execrável. Próxima do senador McCarthy, de Ronald Reagan (na altura actor) e de J. Edgar Hoover, a antiga estrela de cinema cuspia veneno numa coluna que chegou a ter trinta e cinco milhões de leitores (um magnífico trabalho de Helen Mirren).

Houve, no entanto, sinais positivos: num primeiro momento (o mais difícil), Gregory Peck e Lucille Ball insurgirão-se contra a perseguição daqueles que eram conotados com ideias “inimigas da América”; mais tarde, Kirk Douglas (Spartacus) e Otto Preminger (O Êxodo) deram a estocada que viria a acabar de vez com aquele período de vergonha ao insistirem, sob ameaças e protestos, na inclusão do nome de Dalton Trumbo nos créditos dos respectivos filmes. Sem subterfúgios nem disfarces.

Dalton Trumbo não vergou nem pediu desculpa. Manteve a defesa das suas ideias e com isso mostrou, concordemos ou discordemos delas, coragem.

Da caça às bruxas de que Trumbo foi vítima até hoje, a diferença está na forma: a censura não é já tanto imposta por quem manda, mas massificada por quem se ofende com o que quer que não vá de encontro às suas ideias. A fronteira é ténue entre o que uma comunidade deve ou não aceitar, mas rejeitarmos a capacidade reflexiva e a aceitação do outro é, mais do que um atentado à liberdade, um atentado ao espírito humano.

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