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Tremia como se estivesse num palco!

Eram olhares críticos e exigentes, superiores às minhas capacidades. Vivia subjugado a uma representação mental, elaborada por mim, sobre o modo como parecia aos olhos dos outros. Era a imagem que tinha de mim mesmo e que atribuía a quem se aproximava de mim.

Sentia-me como se estivesse no centro de um palco, onde o público me observava com atenção e me avaliava. Chegava a tremer, suar, corar, gaguejar.

As minhas sensações e os sinais exteriores confirmavam o medo que sentia. O modo como eu percecionava, o meu foco de atenção, as minhas crenças e avaliações impeliam-me a temer, ao ponto de evitar encontros com os outros, tal era o medo em ser avaliado.

Vivia num estado de contínua vigilância, antecipação, avaliação, que me consumia energia e atenção, em múltiplas tarefas, com implicações negativas para a minha vida. No fundo, estava num círculo fechado que aumentava a minha ansiedade. Achava-me um incapacitado, sentia vergonha por isso e, ao mesmo tempo, reconhecia que ninguém cuidava de mim. Receava ser avaliado, ao ponto de evitar mostrar a minha vulnerabilidade e temer revelar sinais que a indiciassem. Para tal, fugia de situações em que pudesse ser avaliado, revelando a minha incapacidade e a minha convicção acerca da minha debilidade! Chegava a ter pânico de situações onde alguém me pudesse avaliar.

Sentia que tinha passado a vida a tentar agradar os outros, com medo de os desiludir, com medo de que algo de mau me pudesse acontecer. Vivi em ambientes de controlo, rejeição, humilhação, sem que ninguém me protegesse. Sentia-me um ser inapto, desinteressante, estranho, inútil – talvez nem merecesse proteção. Tinha medo de ser assim e de ser avaliado como tal, assustava-me só de pensar que podia tremer ou transpirar.

A situação assumiu um impacto enorme na minha vida. Controlava conversas, não mantinha contato visual com os outros, tinha dificuldade em interagir com as pessoas, permanecia em casa, retardava relacionamentos. Pressentia um perigo eminente só de pensar em ser avaliado, humilhado, desconsiderado. Vivia mergulhado numa vergonha profunda. Sentia-me abandonado, rejeitado. A única coisa que me protegia era controlar, evitar essa dor que não queria sentir. Era assustador, fragilizava-me, bloqueava-me.

Entretanto, decidi mudar. Contava com o apoio dos meus familiares, em particular de um irmão. Os meus amigos não se cansavam de me procurar. Noutros domínios de saúde, estava bem. Tinha capacidade de trabalho, de reflexão, de estudo, incluindo o gosto na aprendizagem.

Pedi ajuda a um profissional. Comecei a entender, passo a passo, as componentes e os níveis da ansiedade, bem como as minhas vulnerabilidades e o meu contexto familiar. Valorizei o relaxamento, as habilidades sociais, a atenção plena. Experimentei que algumas das minhas reações emocionais podiam decorrer mais das interpretações que fazia das situações do que propriamente destas. Identifiquei pensamentos automáticos distorcidos e crenças prejudiciais, que estavam a condicionar o meu bem-estar. Será que era um falhado? Será que não merecia ser cuidado? Estariam outros assim tão focados em mim?

Progressivamente foi diminuindo a ansiedade, passei a lidar com situações que antes temia, deixei de ter comportamentos de evitamento desadaptados às situações, consegui, de um modo autónomo, expor-me em situações desafiantes e rever pensamentos distorcidos.

Tudo isso aconteceu, sobretudo, porque comecei a cuidar de mim, do que sentia de mais profundo e genuíno. Porque tive coragem em pedir ajuda. Porque expressei a tristeza que vivi a pessoas que gostavam de mim e me compreendiam. Porque perdoei àquelas pessoas que me trataram de um modo que eu não merecia. Porque expressei a minha raiva protetora perante injustiças que vivi. Porque reconheci o meu valor, a minha capacidade de cuidar da dor que sentia, a minha propensão para amar-me e amar os outros.

Sentia-me como se estivesse no centro de um palco, onde o público me observava com atenção e me avaliava. Chegava a tremer, suar, corar, gaguejar.

Bernardo Corrêa d'Almeida

Sou o Bernardo Corrêa d’Almeida e exerço a profissão de psicólogo. Tenho uma grande paixão pelo que faço e isso traduz-se em presença, cuidado, dedicação às pessoas com quem trabalho. Também sou professor, escritor e curioso em aprender!

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