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Amor e uma cabal Distância

As relações modernas são tramadas. Bem podem falar-me sobre casamentos por procuração e viúvas criadas pela guerra. Ainda assim, nenhum desses indiscutíveis dramas invalida o infortúnio em que se criam muitas das relações modernas. Mas, afinal, quem as trama?

Aventuro-me a apontar o dedo à Distância. Mesmo sabendo que, cada vez que estico o dedo indicador em tom acusatório, tenho outros três virados para mim própria. Para todos os meus defeitos, impossíveis de calar pelas virtudes. Para todas as minhas virtudes, que não se revelam na hora certa. E para todos os planos individuais, que não se coadunam com um plano a dois.

Defeitos, virtudes e planos. Também estas são formas de Distância, à sua maneira. Porque as distâncias de hoje assumem muitos feitios. São uma amalgama de ambições, possibilidades e sonhos, somadas às já conhecidas vidas separadas por cidades, países e continentes.

O problema é que ter aviões, que nos põem no Japão, – ou meros autocarros, que nos levam até lá acima ou até lá abaixo, – significa sabermos que podemos estar no Japão – ou lá em cima ou lá em baixo. E, às vezes, vamos. E ficamos. Arrastando no coração tudo o que isso implica.

A complicação está aí: o bem-aventurado amor e uma cabana não é – nem nunca será – o mesmo que o malfadado amor e dois quartos a 300, 800, 1.000 ou 9.500 quilómetros de distância. Especialmente quando não se vislumbra a cabana num futuro próximo.

Durante seis anos, tentei ver a cabana, mas tudo o que encontrei, bem desfocado, foram arames vergados, sob o peso da incerteza constante. E, ainda, frágeis palhas esvoaçantes, num só sopro de superação pessoal. Às tantas, o desabamento foi uma consequência natural da imaturidade ou do egoísmo.

Certo é que, à minha volta, vi outras ruínas a tornarem-se inevitáveis. Certo é, também, que conheci quem tenha tido a sorte de encontrar a Distância cabal, em que as individualidades não se anulam, mesmo coexistindo. Tal como é suposto.

E, por isso, hoje escrevo este texto. Não como um absoluto lamento pessoal, mas sobretudo com a missão de mostrar a quem se sente traído pela Distância, tal como eu me sinto, que não está sozinho na solidão.

Afinal de contas, nenhuma história é única, por muito especiais que nos achemos. E a História também nos diz que ainda há esperança. Talvez não na alma gémea, mas sim na Distância certa. O que lá no fundo – sejamos sinceros – vai dar ao mesmo.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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