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Spider-Man: Far From Home

Avengers: Endgame mudou radicalmente o Universo Cinematográfico Marvel (MCU). A épica batalha contra Thanos concluiu uma década de histórias, mas também nos deixou um mundo totalmente novo, no qual metade da população voltou a existir depois de ter desaparecido durante 5 anos. Como é que o MCU irá lidar com consequências como estas que têm uma escala universal?

>> CUIDADO COM OS SPOILERS <<

Sendo tanto uma contraposição mais leve ao sério e monumental Avengers: Endgame como um excitante início para a próxima fase do MCU, Spider-Man: Far From Home é um filme extremamente divertido, com uma execução inteligente e uma aventura, em muitos momentos, hilariante. Peter Parker pode ter ganho uma segunda oportunidade para viver a sua vida, mas isso não significa que tudo será agora um mar de rosas ou que o peso da dicotomia responsabilidade para com os outros vs. vida pessoal tenha reduzido. É particularmente a compreensão desta dicotomia que está no centro desta sequela.

Tony Stark está morto, mas a sua memória é uma presença constante em todo o filme. Peter (mais uma vez, interpretado pelo irrepreensível Tom Holland) encontra-se frequentemente próximo de um santuário ou de uma imagem do seu falecido mentor, o herói que deu a sua vida para deter Thanos. É uma luta constante para conseguir tornar-se na pessoa que Tony gostaria que ele se tornasse, mesmo quando se mantém consciente do facto de que é apenas um herói local, apesar de já ter tido aventuras cósmicas. Spider-Man: Far From Home apresenta-nos um Homem-Aranha que é confrontado por uma ameaça muito diferente daquela a que está habituado e que irá determinar se é mesmo merecedor de todas as esperanças que Tony depositou nele.

Tal como Spider-Man: Homecoming foi uma divertida comédia juvenil que, por acaso, também era um filme do Homem-Aranha, Far From Home também seria um filme agradável, mesmo que não tivesse as aventuras de super-heróis. O impecável sentido de humor do filme anterior pode não estar tão bem oleado (existe uma piada recorrente no filme todo sobre bruxaria que nunca acaba por ter piada), mas o director, Jon Watts, claramente está a gostar de brincar com o processo de crescimento do seu jovem herói, misturando o género comédia romântica com uma viagem à Europa.

Contudo, as responsabilidades de super-herói acabam por, inevitavelmente, interromper a diversão, quando Nick Fury (Samuel Jackson) decide sequestrar esta viagem por inteiro, recrutando o Homem-Aranha para lutar contra os Elementals ao lado de Quentin Beck, também conhecido como Mysterio (Jake Gyllenhaal). Jon Watts conseguiu recrear maravilhosamente Queens em Spider-Man: Homecoming, mas aqui é claro que adorou explorar todas as possibilidades que tinha ao tirar o nosso amigo aracnídeo do seu bairro e colocando-o no meio de edifícios históricos a cair, multidões de turistas e a enfrentar inimigos que não consegue combater com as suas teias. Para além disso, ainda conseguiu aproveitar-se do facto do Homem-Aranha ser o Vingador mais acrobático de todos, pontuando todas as cenas de acção com acrobacias incríveis, especialmente na batalha final na Ponte da Torre, em Londres.

Depois de Spider-Man: Homecoming, Peter Parker ficou sob a alçada de Tony Stark, mas a sua ausência permitiu trazer para a sua vida três figuras masculinas de grande relevo. Mysterio, uma personagem que tem uma diferença significativa dos comics e que se torna no seu parceiro e confidente, dando-lhe a empatia e compreensão que necessita face à perda que Peter viveu. Depois temos Nick Fury, com a sua imperial presença, tanto a lamentar-se por o único herói disponível para a crise em mãos ser uma criança como a aproveitar todas as oportunidades que tem para impor a sua autoridade sobre ele. Por fim e depois de ter passado o primeiro filme quase todo a fazer de ama do Homem-Aranha, Happy Hogan (Jon Favreau) consegue agora criar uma ligação com o jovem herói, através do luto que partilham e do medo que ambos sentem de Fury – tudo enquanto mantém uma relação secreta com a tia May (Marisa Tomei). É um exemplo da capacidade do realizador em gerir várias histórias sem que elas se sobreponham umas às outras, algo que dá um peso emocional bastante interessante ao lado Aranha do MCU.

Se houvesse um ponto negativo que mereça ser destacado, seria a relação desinteressante que se cria inicialmente entre Peter e Beck, que acaba por parecer demasiado forçada. Contudo, quando Jake Gyllenhaal se liberta do seu lado heróico, o filme acaba por ganhar mais energia e, consequentemente, interesse. Aliás, se não fosse este aumento de energia, a grande revelação sobre Mysterio e a segunda metade do filme não teriam a mesma piada que teve, mesmo com a ligação inesperada ao início da MCU. Paralelamente, é nesta segunda parte que Spider-Man: Far From Home tem um momento de imaginação incrível que não é visto em nenhum filme desde que o Doutor Estranho teve o seu primeiro contacto com o The Ancient One.

Apesar de todos estas linhas narrativas, o filme nunca nos deixa esquecer do objectivo que Peter tem em convidar MJ para um encontro. É enternecedor e querido ver o crescente romance entre os dois, sendo que Zendaya brilha em todos os momentos em que aparece, principalmente quando está a lançar os seus comentários sarcásticos. Tom Holland continua a ser um perfeito Homem-Aranha – mais divertido e plausível do que Tobey Maguire e Andrew Garfield alguma vez foram. Neste filme, pode estar desesperado por tirar o peso do mundo dos seus ombros, mas o actor nunca perde o brilho que faz dele numa das figuras mais cativantes no Universo Cinematográfico Marvel.

Spider-Man: Far From Home é um filme mais solto do que o seu antecessor, com uma fluidez que, por vezes, é perdida e que tem a tendência de querer dar a todos os personagens os seus cinco minutos de fama. No entanto, existe também uma leveza na abordagem ao pesado legado que Avengers: Endgame deixou, até ao momento em que se liberta desse peso e parte à aventura por novos caminhos. O MCU ainda não necessita de um novo Homem de Ferro. Spider-Man: Far From Home prova que este universo está muito bem entregue nas mãos do Homem-Aranha.

Pontuação Final

Representação - 95%
Argumento - 85%
Produção - 90%
Efeitos Especiais - 95%

91%

A leveza depois de Avengers: Endgame

Spider-Man: Far From Home prova que este universo está muito bem entregue nas mãos do Homem-Aranha.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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