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“Sinto muito, Me perdoe, Eu te amo, Sou grato.”

O meu filho tem 14 anos e vai frequentar o 9º ano. Olhando para ele, que já me excede na altura, parece-me que o tempo passou tão rápido, que ainda ontem era eu quem tinha essa idade. É inevitável lembrar as dúvidas existenciais relativamente a opções de área escolar, aos psicotécnicos, aos amigos, aos namoros, às opções de uma vida, tão precocemente delimitadas. Cresci numa ideia, fruto de uma educação extremamente convencional, de que a vida se construía no máximo até aos 30, realizando os estudos, a profissão, o casamento e os inevitáveis filhos. De preferência por esta ordem. A partir dos 30, e cumpridas as tarefas de “ficar arrumadinha” nada mais havia a fazer do que empurrar com a barriga. Considerando que tive avós a chegar perto dos 100, parece-me que 70 anos a empurrar com a barriga é muito tempo. A menos que seja um qualquer exercício fitness, e mesmo o sendo, parece-me aterradoramente monótono, desinteressante e limitativo.

Há sempre aquela pergunta do: então já sabes o que queres ser quando fores grande? Esta pergunta, habitualmente ligada a questões profissionais, pode levar-nos mais longe, abrangendo outros aspectos da vida: e tu, já sabes o que queres da vida? Tens uma ideia clara de quem pretendes ser, não só ao nível profissional, familiar, passatempos ou, no mais essencial, o tipo de pessoa que queres ser? Todos temos ideias do que queremos ser, ter, fazer, um dia. Com o desenrolar da vida, vem a inevitável avaliação do realizado, matriz implacável que a muitos mostra essencialmente o inalcançado, como prova da falha, do amargo, da incapacidade. A questão é: que etapa da tua vida servirá de base à tua avaliação? Quando é que podemos considerar que atingiste a maturidade suficiente para teres uma ideia estável e concretizável?

Aos 14 anos, eu queria ser co-gerente de uma empresa de estufas de kiwis com a minha melhor amiga Margarida. Era o tempo dos subsídios da UE, 1990, e tínhamos imensas ideias, aliando a gestão e a biologia, que ambas gostávamos, ao glamour das séries de gestoras que na altura passavam na velhinha RTP. Antes disso, eu quis ser jornalista, quando sonhava com a Alice Vieira, depois bióloga marinha, perscrutando nas praias da minha adolescência, costa vicentina, as alfaces do mar, sinal de pureza das águas. Também quis ser pediatra e cabeleireira nos tempos livres. Posso dizer-vos que ambas ficámos “muito ao largo” (e aqui talvez o destino me traga nas palavras a  terminologia da marinha mercante onde efectivamente trabalho), sendo que ela é a que se aproxima mais deste sonho, porque vive numa aldeia do Ribatejo. Nenhuma de nós casou com o namorado da altura, embora não me lembre de algum dia termos desejado isso. Desse tempo, e dos desejos para o futuro, talvez a única coisa que se concretizou, conforme planeada, foi a amizade de uma vida, que partilhamos com algumas outras pessoas desse tempo.

Quando penso nestas coisas da vida, afigura-se-me um argumento cinematográfico a ser seguido, pré-determinado, de A a B. Imutável, prematuro e desprovido da realidade que ainda não conhecemos. Não é que aos 14 anos não sejamos capaz de ter opiniões formadas, a questão é que por um lado não conhecemos tudo, e sobretudo não temos noção de que há factores que não controlamos, embora nessa altura achemos, na pujança da força da juventude, que tudo é alcançável, nem que seja com muito esforço. Para mim, a lição maior destes 45 anos de vida, talvez motivada por alguns percalços não planeados a que precisei dar resposta, é que a vida se constrói em cada dia, e em qualquer altura somos capazes de lhe dar um destino diferente. Reconstrói-se, renasce-se. Muda-se de marido, de trabalho, de amigos, de actividades, de opiniões, conserta-se a vida, à medida das vontades e juízos do momento, efectuando um corte e costura permanente no sentido que se pretende, reajustando,  sem a rigidez de seguir um plano traçado, que ainda que se concretizasse, talvez não nos desse a satisfação que esperaríamos no momento do planeamento. Tudo na busca de se ter uma vida com a qual nos identifiquemos e nos permita sermos mais nós próprios.

Outra questão importante é o habitual foco no que não foi alcançado. Interpretamos como falha nossa, ainda que condicionados por factos alheios ao nosso intuito. Lamentamos, como se considerássemos um desperdício, um hiato no esboço feito a caneta marcada a força no papel. Queria tanto ser gestora de estufas, é verdade, mas isso nessa altura. Hoje acredito que talvez não fosse o que me preenchesse. Não nos permitimos libertar dessa gaiola do predestinado por nós próprios, como se de gestores da nossa vida, passássemos apenas a meros e serviçais executores da mesma, com curtos padrões de satisfação. E então, em vez de ajustarmos as velas, redefinindo a viagem, permanecemos a olhar a vela rasgada, e a lamentar, sem nada fazer, como se aquilo que não alcançámos tivesse o peso do fracasso. Seremos nós o nosso melhor orientador? Conhecemo-nos ao ponto de definir objectivos realizáveis de acordo com as nossas características e capacidades? Ou fazemos planos infantis, descabidos, desejando aquilo que nos parece atractivo nos outros, mas que não nos preenche? Temos a coragem de contrariar o gps quando este no seu determinismo cego não tem uma indicação inteligente? Ou escolhemos permanecer na amargura, para termos de que nos queixar, coitadinhos de nós, sem demais?

Recorrendo a lugares-comuns, que o verão já me invadiu na languidez dos dias e o ano foi de lutas, talvez devamos parar para ouvir a vida. Talvez seja adequado abrandar a inserção forçada no molde rígido que para nós definimos, e ouvir o vento. Por norma sou muito activa e chego, resolvo e sigo adiante. Contudo, talvez nesta pressa de resolução, na obsessão de deixar o trilho na vida que a mim propus, tenha sido cega e surda a alternativas que eventualmente teriam sido mais generosas para comigo. Quantas pessoas conhecemos casualmente, sem uma acção óbvia da nossa parte, que nos mudaram a visão das coisas, nos apresentaram outros mundos, outras formas de ser? Quantas vezes acontecimentos menos felizes nos redireccionaram ao melhor das nossas vidas?  E tudo isto, tão profícuo, mas sem a nossa diretiva instrutora. Por norma desvalorizo a passividade, que considero característica menor e própria dos fracos, mas tenho que reconhecer que eventualmente, no meu excesso de determinismo e opinião, boicotei acontecimentos que me trariam mais felicidade do que a que eu construí.

Ainda assim, a vida é uma continuidade de escolhas e tenho algo por que ser grata. Não tendo tudo o que planeei, talvez tenha melhor do que alguma vez me atrevi a esperar. Sinto-me uma privilegiada. Contingentemente, por caminhos alternativos aos inicialmente traçados, tenho uma vida confortável, sem acontecimentos graves, tenho uma família que construí e que amo, amigos presentes que muito estimo, tenho rendimento bastante para viver sem dramas, e tempos livres que me saciam a alma. Acordo e adormeço, na maior parte dos dias, feliz. E com ideias. E vontades. Mas mais que isso, tenho a noção de que a história está inacabada, e que factos que hoje me atormentam não restarão na minha memória em meses ou anos, e muitos acontecimentos e pessoas -válidos- estarão por vir. No ano passado conheci, a favor de todos os desejos, mas contra todas as expectativas, a Alice Vieira, que me enchia o mundo infantil de sonhos. Há dias, um menino que não conheço sorriu-me e ofereceu-me uma folha que trazia na sua mão. Recentemente alguém para quem eu julgava ser invisível, deu por mim. E surpresas boas como esta continuam a acontecer, nas palavras, nas emoções e nos afectos com que sou brindada, nas conquistas que tenho feito, nos beijos que a vida às vezes me traz, sobretudo quando estou distraída e em repouso, sem lutas aguerridas e esforçadas. E em consequência, sou grata. Muito.

E deixa a vida me levar (vida leva eu!)
Deixa a vida me levar (vida leva eu!)
Deixa a vida me levar (vida leva eu!)
Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu

Só posso levantar as mãos pro céu
Agradecer e ser fiel
Ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso
Com o que tenho, vivo
De mansinho lá vou eu
Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu!
E sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu

ZECA PAGODINHO, Deixa a vida me levar

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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