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Ato ou efeito de olvidar

Fiz por garantir que te custaria largar a lembrança. O não esquecer respeita à dor de largar. A mente é de uma perícia invulgar quanto à arte do olvido, quem não quer somos nós.

Silêncio.

Que aberração será largar o tempo do amor, transpô-lo para o plano do esquecimento?

Há que escolher. Não sofrer a lembrança de tê-lo no passado é a lembrança apagada da magnitude daquela felicidade que lá ficou. Ainda assim, há hoje felicidade, gotas dela. Que os riachos podem ser de muita coisa, mas não desta matéria tão particular que é a felicidade em bruto. Essa é-nos servida em pequenas gotas. E nesse tempo, no tempo em que o passado era respirável, choveu uma porção de gotas. Gradas. Gotas gradas. Arrisco dizer, encheu um par de riachos. A felicidade em bruto por um tempo que se estendia. Uma maravilha, não foi?

Hoje chove menos, há a evidência de que não derrama igual nas diferentes terras. Há a coisa do solo, do calor ou do frio, da distribuição que Deus fez ao mundo. Cada terra é uma. Mas agora chove menos. Apagar-te é fazer esquecer que há chuva grada. Deixar ir a lembrança é tirar a importância a um tempo que ensina que o amor recusa o natural curso do esquecimento. Se bem que, já há qualquer coisa em ti que é mito, quimera. Porque já não és bem tu, já nem é sobre ti. É sobre as gotas. A diferença é que tu és o único, além de mim, que sabe que elas existem na medida exata para fazer viver um par de riachos em dois mundos. É como se tivéssemos um conhecimento em comum, daqueles que não se andam para aí a contar.

Estou certa que o devas sentir assim também. E sei bem que não somos já capazes deste feito, nem daria para poças modestas. Ainda assim, amor de antes, dou por mim a pensar na beleza de lado a lado, sentados, lembrarmos o cabo das tormentas que é carregar esta memória e saudarmo-nos, lado a lado, da magnitude daquela felicidade, bebericando de um cálice, cada um com o seu, entre recordações e risos-memória.

Talvez seja isto que fazem os velhos. Escolheram, a certo ponto, assumir o lado a lado com quem viu das mesmas gotas, mesmo que não chova já mais. E, em certa medida, tenho disto pena, da distância não permitir que recordemos em voz alta. Só tu sabes da maravilha que foi, além de mim. Não temos já com quem falar, é esta a tragédia da separação.

Gabriela Pacheco

Formadora. CopyWriter. GhostWriter. Escritora. Gestora de Desenvolvimento e Formação com Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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