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ContosCultura

Mas o senhor não sabe que isso da liberdade começa por dentro?

O Castro da Contabilidade nunca foi dado a bebedeiras metafísicas. O mundo sempre lhe aconteceu matematicamente. 

Assim mesmo se apresenta, Castro de nome, da Contabilidade fazendo as vezes de apelido. Vemo-lo sentado num cadeirão rígido, os olhos fechados, não adormecidos. Ouve uma peça que daqui nos parece uma sonata de Scarlatti. É cedo. A manhã vai estendendo os seus tentáculos de claridade, ainda tenros, para dentro do apartamento museologicamente arrumado. O começo redundante dos dias todos.

Apruma-se e sai à hora de sempre. A rua pálida de sol, rumo ao café onde costuma trabalhar. O mesmo bom dia, como está, o mesmo pedido, a mesma mesa do canto, a mesma forma de dispor o café, a torrada, o salgadinho, a calculadora, o computador e o caderno quadriculado a estrear. O Castro da Contabilidade não improvisa.

Passa pelo tempo rodeado da previsibilidade confortável de números, impostos, obrigações, crédito e débito, IVA e IRC, Euribor e spread, ativo e passivo, o ativo gemendo em cima do passivo, isso nunca. Ainda assim, sentia uma certa curiosidade pelas frases que iam bailando dentro do café, atraído pelo assignificado de algumas palavras turvas

: acredita, não há nada pior do que deixar pontas soltas.

: eu nunca fui bom pela manhã, mas agora faço meditação.

: ó menina, isto não é uma chávena escaldada.

: filho, tens de perceber que o mundo acaba todos os dias.

: o coitado estava destinado à morte.

: e não estamos todos, Maria do Céu?

: desde que a deixei, só sexo a pagar.

: pode ser Pepsi?

: então mas tu acreditas que o universo tem uma porta de entrada?

: com palhinhas de bambu não vamos lá.

: ainda hoje publicámos uma selfie juntos, claro que somos felizes.

: repara, as pedras também nascem, mas raramente morrem.

: pior do que isso, só mesmo as pontas espigadas.

 

O Castro da Contabilidade passeava-se por estes farrapos discursivos como se visitasse um país estrangeiro e indecifrável. Mas rapidamente voltava à tangibilidade lógica das taxas de juro.

De repente, de rompante, uma miúda abeirou-se da mesa, trovejando. Trazia urgência nos gestos rápidos e na voz mas uma tranquilidade desconcertante nos olhos indefinidos e cinzentos, onde subsistia um rasto de madrugada. Perante aquele desatino, o Castro da Contabilidade gelou, perdeu a expressão, o sangue deixou de chegar às extremidades — há uma palavra boa para isto em francês, mas agora não me lembro. 

Indelicada, a miúda pousou o tabaco de enrolar e o copo de cerveja enevoado de frescura. Arrancou-lhe o caderno quadriculado da mesa, abriu-o e pousou a caneta na primeira página. Vacilou. Uma mancha de tinta alastrava na folha, ansiando um começo definitivo. A primeira palavra puxou as seguintes e, sem levantar os olhos, grafou

uma certeza
é um lençol curto que
nos deixa os pés de fora
olha que
os girassóis do van Gogh
nunca quiseram
certezas
já eu
só queria dançar-te
até a orquestra desistir
tenho-te procurado
mas acho que
a agulha nem chegou
a entrar
no palheiro

 

Afastou o caderno para poder ver a mancha de texto no quadriculado. 

— Foda-se, não era nada disto. Esta merda de procurar os versos certos é pior do que pescar à mão. 

— Desculpe, mas não percebo o seu desplante — gaguejou o Castro da Contabilidade. — Esse caderno é novo e é meu. Serve para assuntos sérios, numéricos, e não para avarias.

— Ui, descontraia um pouco, monsieur. Solte-se, pá. Não se esqueça que viver bem é ser livre e isso da liberdade começa sempre por dentro. 

(Tem toda a razão, caro leitor: acabamos de dar vazão ao título disto).

Devolveu o caderno à mesa e saiu para a esplanada, ostentando a sua forma insubmissa de habitar o ar. O nosso contabilista ali ficou, desarranjado com o desconcertante despropósito daquela desconsideração.

Minutos depois, decidiu ler o poema que ali jazia e que, irritantemente, contrariava a natureza, a essência e até o desiderato daquele pobre caderno de finanças. Seguiu a silhueta irregular dos versos até ao final e sentiu uma sensação estranha a invadir-lhe as entranhas. Não era fome. 

Ali ficou por um bocado, incapaz de voltar ao cálculo. Subtraído por uma estranha inquietude, saiu para a rua: o Castro da Contabilidade improvisava. Caminhou durante horas largas em direção a coisa nenhuma, pensando com os intestinos. A dada altura, parou para observar uma parede que guardava um grito mudo, pintado a vermelho:

COMEM TUDO E NÃO DEIXAM NADA
IDE-VOS FODER

Nunca se tinha demorado em nenhuma dessas mensagens que tatuam a cidade. Porém, teve a esquisita impressão de conseguir ali vislumbrar os ossos do mundo. Arrepiou-se quando desembarcou nessa ideia, sem por isso deixar de se sentir confuso pela falta de clareza lógica dos seus pensamentos naquele final de tarde.

Manteve o passo pensante até anoitecer e desaguou numa praia, já com o esqueleto a estalar de frio. Ainda assim, sentou-se a ouvir o florir das ondas e por ali ficou. Alguma coisa permanecia em gestação dentro de si nesse comprido silêncio gelado. 

Levantou-se, não sacudiu a areia das calças (há gestos que não fazemos que são muito visíveis), e caminhou até ao mar. Primeiro molhou os pés descalços, depois entrou totalmente por esse organismo vivo adentro, assim vestido, sem ponta de oscilação. 

Soube ali, naquele preciso momento, que essa coisa da liberdade se faz inteira numa mistura de sal, errância, erro e um grito solto que espantou a madrugada, por ter ascendido aos oitenta e três decibéis. Deixou que os cabelos se inundassem de oceano, terra e céu — era uma chegada a casa. Nestas águas te batizo, Castro, em nome desse primeiro e seminal momento em que, por fim, estamos aquilo que somos. Que assim seja. 

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