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Quanto tempo vale este por-do-sol?

O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem, e o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo como o tempo tempo tem.

Uma das coisas que me ofende silenciosamente é quando me atiram com respostas tipo “ah, mas tu tens tempo”, principalmente quando sai de bocas que estão sempre a queixarem-se de não terem tempo e, ao mesmo tempo, de que não fizeram nada com o tempo que têm. Por certo que muitas destas vezes, quem as profere, não tem consciência de si ou é muito ambicioso, ou simplesmente está num ato de pena própria à espera que saia um remendo emocional alheio para se recompor.

O tempo vale o tempo que nós nos dispusermos a dar-lhe. O meu tempo tem a mesma unidade de medição, mas tem um valor diferente do vosso pelo retorno que retiro dele.

Eu dou valor a este tempo em que estou aqui a escrever e que me dá mais prazer do que estar agora numa esplanada barulhenta rodeada de 20 pseudo-conhecidos vulgo amigos, mas retiraria igual prazer caso estivesse numa esplanada improvisada com 2 ou 3 amigos em amena cavaqueira durante só 5 minutos ou uma tarde inteira, ou a cozinhar uma refeição mais elaborada, ou a planear uma nova ideia, ou numa caminhada a levar com vento na tromba, ou num convívio do núcleo familiar, ou a desenvolver algo novo a nível profissional ou até a não fazer nada.

O ócio é muitas vezes desvalorizado como uma forma relevante de dar valor ao tempo, principalmente nos mais pequenos e em quem tem ritmos diários muito intensos. Não fazer nada é uma arte que devemos aprender desde pequenos.

Muitos conhecerão e viverão no trava-línguas inicial. Eu decorei-o na escola primária, quando para mim o tempo tinha todo o tempo: quando passava horas a fazer os trabalhos de casa sob uma vinha, quando construía casas modulares atrás da porta do quarto (e entrava e saída só por uma fisga para não os desmanchar), quando à hora do lanche corria para apanhar os tomates que desejava desde ontem que já estivessem maduros, quando acordava cedo ao sábado para ir apanhar castanhas com a avó paterna ou quando aguardava por outro domingo para auscultar o estado dos morangueiros na casa da avó materna, ou quando esperava pelas quartas-feiras à tarde pela chegada da biblioteca ambulante.

Às vezes parece que tudo isto foi ontem e outras que foi à demasiado tempo, mas terá sido no tempo necessário para hoje me lembrar disto, mais do que com saudade, com imenso carinho.

Volta e meia surgem novos métodos para desfrutarmos do tempo, para melhorarmos a qualidade de vida. Existe o hygge, o minimalismo, as dietas (sim, o que comemos é muito importante no tempo, já devem ter ouvido que o sistema digestivo é o nosso segundo cérebro), e muitas outras que sugerem que adotemos novas rotinas, hábitos “mais saudáveis”, que nos desprendamos dos bens materiais e que se invista essencialmente em experiências novas e diferentes.

Só que como nunca gostamos de fazer as coisas por pouco nem por improviso, um almoço ou um café com amigos ou familiares tem que ser planeado com meses de antecedência e ter uma agenda pré-aprovada, um por-de-sol só é bonito se for num spot in e badalado, uma refeição só é boa se for num sítio dito gourmet, só viajamos se for para ir a mais do x milhas de distância, ou a roupa para nos ficar bem tem que nos custar 10x mais do que o seu custo de fabrico. E para nos proporcionarmos grande parte destas experiencias recorremos ao valor do dinheiro que para além de suor (físico e/ou cerebral) nos custou tempo, mais do que o previsto trabalhar, porque mesmo depois de terminar o horário de trabalho continuamos a trabalhar ligados umbilicalmente ao telemóvel e ao computador.

E assim cria-se outro dilema ideológico, o dinheiro compra-nos tempo ou deturpa-nos a noção de tempo e do seu respetivo valor, fazendo-nos cegos perante a parte de que nunca seremos ressarcidos? Li algures este fim de semana, que a diferença entre o tempo e o dinheiro, está no facto de relativamente ao dinheiro sabermos sempre o que temos (e não temos), mas nunca o sabermos relativamente ao tempo.

Volta e meia também ocorre outra ironia, em que o dinheiro e o tempo estão numa relação inversamente proporcional: quando dispomos de dinheiro para gastar não dispomos de tempo disponível para usufruir e quando usufruímos de tempo não dispomos de dinheiro.

Qual é o valor do tempo? Depende! Depende do quanto nos conhecemos e de quanto nos aceitamos, a nós e aos outros, do que nos move e do que fugimos.

Eu sei que o meu tempo teve valor quando ao fim do dia tenho aquela sensação de “barriga cheia”, como quando no regresso a casa me deparo com este por-do-sol.

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