Os recomeços

A solidão acompanha grande parte da população. Uns, porque não têm com quem partilhar a sua vida e outros, porque sentem que foram abandonados. Viver só pode ser um modo de estar e uma opção salutar desde que seja a forma de se encontrar e de se reinventar. Estar só não significa solidão, mas apenas uma escolha consciente e meditada.

Estipulou-se que duas pessoas, quando chegadas a uma certa idade, se devem unir e formar uma família. Os rebentos, vulgarmente conhecidos por filhos, são manhosos e crescem a uma velocidade vertiginosa. Os pais vão envelhecendo numa relação de acção-reacção o que lhes vai permitir receber a passagem do testemunho. Uma responsabilidade acrescida.

Mais tarde, essas crianças que se transformaram em adultos, saem de casa e eventualmente continuam a saga das famílias que se perpetuam no tempo. Ou não, porque os tempos são de mudança e escolhem outras vias de estar na vida. A casa, a que largaram, fica mais ampla e os pais regressam a tempos que já se tinham esquecido. Um sossego nem sempre simpático.

Os dias desfilam como se fossem modelos na passadeira vermelha. Todos são enormes e jovens, prontos a serem vividos com entusiasmo e sabor um pouco amargo, mas com um paladar que ainda se aventura em novas paisagens de emoção. Os dias a dois, recuperados num tempo que já não volta, sabem a conforto e intimidade, mas com uma aragem forte de saudade dos que um dia ali viveram e deixaram a sua marca.

Os dois que restaram pintam uma tela de silêncio e de nostalgia. Foram belos tempos de aprendizagem, de partilha e de aventura contínua, mas não podem regressar jamais. A vida agora tem outro timbre e a melodia que se toca é mais suave e calma. Regressam as confidências e aos à-vontades que se tinham guardado para um dia serem usados.

Depois vem a partida, uma espécie de rasteira que a vida prega e um deles tem de abandonar o conforto de lar e entrar numa barca estranha e imprecisa. O outro fica em terra e sente uma certa desorientação. São anos de convivência que vão redundar em silêncio e murmúrios surdos. As paredes continuam no forte que construíram, mas as respostas não se ouvem.

Há quem acredite que o que se viveu nunca mais desaparece e todas as noites se ilumina para que a solidão seja espantada, outros defendem que estamos todos sós mesmo no meio de uma multidão. O certo é que viver continua a ser uma tarefa complexa e repleta de desafios. Quando quem caminhou connosco se vai, uma brecha escura e persistente ocupa o seu lugar.

Há que recomeçar como se a vida estivesse no início, como se fosse a primeira vez, como se o sol estivesse a abrir e tudo fosse coberto de uma luz tão especial e melancólica que soubesse que se é capaz de reinventar a juventude e os dias perdidos. Já não incomoda a ansiedade, que se acalmou de vez. A experiência mostra que há brilho mesmo quando tudo parece baço.

Aprender a estar consigo é uma experiência que se renova e que se acumula. É tempo de fazer aquilo que se deixou para um dia, o tal curso de pintura ou até mesmo os estudos místicos. A felicidade apresenta-se em tantas e variadas vertentes que se deve saber saborear e usufruir a cada momento. Então certas palavras mudam de significado e de valor e o eu renasce, qual fénix, abrindo o seu coração para acolher o que de bom possa entesourar.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

A velha história do encosto (quando dá jeito)

Next Post

Perder um Amigo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Nuno Marçal

Confesso que não fazia ideia da existência do Nuno. Seria mais um homem do nosso país a fazer pela vida. Contudo…

A ciganita

– Não dá uma moedinha? perguntava ela na sua voz cantarolada, cheia de inflexões e continuidades. Eu sei…

A nossa essência

Neste mundo em que o preconceito nos corre nas veias, sermos nós próprios é realmente difícil. Vivemos numa…