Um dia perdi-me no caminho e não encontrei quem queria, se é que sabia quem encontrar.
Perdida que estava decidi avançar, nem sei bem por que razão, apenas sabia que não devia parar, não até que me detivessem, ou me apetecesse fazê-lo.
Vi então um homem muito encolhido sentado no canto da rua, com um ar abandonado e triste, infeliz talvez. Muito provavelmente, o infeliz já é da minha imaginação.
Ainda que tivesse decidido que não devia parar, abrandei o passo à medida que me aproximava, de modo a melhor observar a sua expressão.
Este homem era o espelho do desalento, de quem estava definitivamente detido pela vida, de quem não tinha perspetivas de um futuro, nem objetivos a alcançar, estava simplesmente à espera que os dias passassem … hora a hora, minuto a minuto. Nada interessado no que seria o seu futuro.
Resolvi então ao contrário do que havia decidido anteriormente, parar, ficar por perto e oferecer-lhe o melhor que tinha para partilhar com ele naquele momento, o meu tempo e atenção. Sentei-me a seu lado e fiquei simplesmente ali, sem mais dizer.
Durante algum tempo, que não sei precisar o silêncio reinou, e por entre o vazio e desconforto que o mesmo provocou, fomos simplesmente ficando, ao lado um do outro, sem dizer uma única palavra.
E de repente, sobre que tema falar, como encetar a conversa e quebrar o gelo? O tema do tempo inevitavelmente desbloqueou o momento, e comecei por falar-lhe do frio que se avizinhava e da chuva que em breve, de acordo com as previsões meteorológicas conhecidas lavaria as ruas ajudando assim a melhorar a atmosfera, que assim ficaria menos poluída permitindo que nos livrássemos das indesejadas poeiras do final de outono.
A conversa foi fluindo sem grandes intenções, fomo-nos deixando ficar levados pelo encantamento de se falar de coisa nenhuma, trocamos impressões como quaisquer outras duas pessoas à conversa, fomos deixando sair opiniões e palpites sobre os nossos gostos em termos atmosféricos e afins, no fundo, como se diz em bom português fomos jogando conversa fora.
Ao fim de algum tempo percebi que estava já a mais naquele contexto, o senhor agradeceu-me a companhia e pediu-me que o deixasse de novo sozinho.
Não querendo ser inconveniente perguntei-lhe se precisava que lhe trouxesse algo, comida ou algum agasalho para que ficasse mais confortável, ao que me respondeu que não seria necessário. Palavras suas:” … esta breve conversa e a sua companhia trouxeram-me o alento que estava a precisar, ajudando-me a sentir de novo gente, que tem com quem conversar.”
E assim voltei de novo ao meu caminho, que não queria interromper, mas que afinal acabei por inadvertidamente tornar diferente no seu trilho, e não me arrependo nada de o ter feito.
Afinal aquela breve pausa, que a mim nenhum dano causou, antes pelo contrário, fez alguém que não conheço, sentir-se melhor, só por essa razão já valeu a pena ter parado, ainda que inicialmente não o tivesse querido fazer.
Os percursos fazem-se alheios de planos e de preparações, nada acontece por acaso e, portanto, mais vale deixar que tudo aconteça como tem que ser.