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Contos

O QUARTO

Demorou o tempo de uma pincelada. Respirei fundo e pouco depois tudo acabou. Nas paredes do quarto, o medo, a doença, a morte. Nos últimos dias, já não conseguia distinguir uma coisa da outra, do que existe e do que não existe, a neurastenia a apoderar-se do que ainda sobrava de mim. A manhã crescia devagar e com toda a vontade dos meus braços carreguei-lhe o corpo pesado, ainda quente.

Mas isso foi muito mais tarde. No início, era apenas a quietude.

Podem tratar-me por Vincent. Há alguns anos, achando-me numa vida sem grande reconhecimento, enfiei roupa e pincéis numa mochila e fugi de mim. Logo depois, na estação de comboios, escolhi o destino ao acaso. O apelo da sobrevivência, a fuga à destruição. É sempre terrível quando as sombras nos começam a cercar no sufoco da ansiedade.

Na cabine, sentada à minha frente, uma mulher de olhos verde-azeitona lia um livro com aparente interesse. A história parecia consumi-la, sorria para as palavras de quando em quando. Tinha um rosto bonito, senti-lhe o cheiro a jardim em dia quente. Notei que entrelaçava os dedos da mão direita por entre os cabelos, apanhava uns poucos e percorria-os com a mão até ao fim, repetidamente, com a precisão de quem fia um tecido. As coxas bem definidas, os lábios carnudos de sedução. Senti uma ligeira erecção. Reparou que eu a observava mas não me deu retorno. Os olhos fugiam uns dos outros, os meus e os dela. Infelizmente para mim, o apelo das letras era mais forte. A desilusão passou a repulsa. Cansado, a cabeça latejava, encostei a cara ao vidro da carruagem e fui contemplando os campos de girassóis. Devo ter adormecido profundamente porque a viagem, que seria longa, terminara num sopro. Acordei com a sôfrega saída dos passageiros e por pouco não me esquecia da mochila.

Nessa Primavera, estabeleci amizade com um construtor de bicicletas, um ofício que sempre me causou curiosidade, mas para o qual eu não tinha grande competência. Quando me perguntou se alguma vez trabalhara numa oficina, respondi que sim, mentindo-lhe. Ofereceu-me quarto e trabalho. Robert era um homem grande, empático mas muito desorganizado. Trabalhava numa oficina cheia de sucata: peças, rodas, correntes, guiadores, ferramentas e todo o tipo de tralha que possam imaginar. Construía bicicletas a partir de pedaços de tudo. Tinha barba e cabelos brancos, mãos grandes. Os dedos muito grossos, com os espaços entre as unhas e a carne, negros de sujidade. Vestia sempre as mesmas jardineiras de ganga com marcas de óleo, camisas aos quadrados, mangas dobradas. Gostava de meter as mãos nos bolsos e passear a proeminência da barriga. Era costume vozear e repetir as perguntas. Tiques que, suponho, vieram com a idade.

As tarefas eram básicas e durante uns tempos apenas trabalhava de manhã. O resto do dia era dividido entre livros e pintura. Na casa de Robert, paredes-meias com a oficina, uma velha biblioteca que fui limpando, organizando, dando uso aos livros. Por entre poeira e teias de aranha, clássicos como A Arte da Guerra, de Sun Tzu, ou Crime e Castigo, de Dostoievski – a história de Raskolnikov, um jovem estudante que assassina uma velha agiota, com a convicção de que matar uma pessoa reles é uma causa maior –, livro pelo qual me seduzi e que devorei em dois dias.

Numa das vezes, enquanto vasculhava uns caixotes, descobri uma placa ferrugenta com uma frase de Eurípides – “Os Deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir” – que recuperei e pendurei na parede do quarto, por cima da cama. Por essa altura, os dias eram serenos. Para que a lentidão do tempo não fosse tão castigadora, montei um pequeno ateliê no quarto, utilizando móveis velhos, telas e tintas que fui encontrando na oficina. Eram tempos de grande criação e produtividade. Não tinha ainda planos para os quadros e isso resultava numa angústia crescente. Também nunca tivera um aconselhamento e isso não era culpa minha. As dúvidas acometem qualquer criador. Talvez tenha sido nesse facto que a vida me perdeu.

Em Outubro desse ano, os pesadelos já tinham surgido e as dores de cabeça começavam a ser insuportáveis. O negrume das noites tornou-se um suplício, a indolência a transformar-se em fúria. A quantidade de quadros foi multiplicando e a dada altura Robert repetia, no seu tique irritante, que eu não fazia mais do que acumular lixo. A raiva crescia-me novamente, o rosto feroz de um animal acossado. Todos os génios consideram os seus críticos como gente reles, opaca e ignorante. Aqueles que não entendem o sentido da arte não merecem viver.

Passavam poucos minutos das nove horas quando, nessa manhã, e por razões que não me podem ser imputadas, a placa com a inscrição de Eurípides rachou a cabeça desprezível de Robert. De repente, uma cor empolgante coloriu paredes, inundou o chão. A arte a triunfar sobre o caos. Nas minhas fantasias, eu via cores excitantes, a realidade, dura, apresentava a frieza dos factos.

Despachado o pedaço de carne inerte, de regresso ao quarto, gozei de uma profunda mansidão. Um artista deve atender apenas ao seu talento, à sua própria voz, concluí.

Sentei-me, pintei.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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