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Alfred Hitchcock – Um Génio Desaparecido

Teresa Wright desconfia do tio em “Mentira!”

Alfred Hitchcock situou-se, creio, num grau relativamente leve de uma escala comportamental desviante que toleramos em muitos artistas: possuía mau génio (e era um grande génio!) e não resistia a controlar as mulheres que emprestavam grandes papéis aos seus filmes, muitas delas frágeis personagens em obscuras histórias de suspense nas quais a natureza humana se mostrava distorcida, fazendo de algumas vítimas desse mundo sombrio. Tal poderia indiciar algo acerca da mente do realizador inglês, bem como a colaboração de uma vida que recebeu da mulher, Alma Reville, argumentista de muitos dos seus filmes, incluindo o meu preferido, Mentira (de 1943), o qual se diz que era também o preferido do próprio.

Não entrarei pela análise psicológica do seu perfil embora os temas dos filmes que dirigiu reflitam algo da mente do realizador.

Os cenários de Dali em “A Casa Encantada”

Entrei no mundo de Hitchcock pelo canal 2 da RTP, “a Netflix dos pobres”, nas palavras recentes de uma amiga publicadas no Facebook. O ciclo No Meu Cinema, da autoria do “enorme” João Bénard da Costa, passava às quintas-feiras e durante um mês iria ser dedicado a Alfred Hitchcock. A Suspeita (1941), com Joan Fontaine (uma das primeiras musas do mestre) e Cary Grant, não me me convenceu, mas a confiança que tinha no autor do programa fez-me continuar com as gravações das obras. Eu devia ter dezoito, vinte anos e aguardava com impaciência o início do programa, pelas 22:30/23:00, para iniciar a gravação e ir dormir. Os filmes eram antecedidos por uma apresentação de Bénard da Costa, cerca de quinze a vinte minutos de conversa de puro deleite. Amei A Casa Encantada (1945), com Ingrid Bergman e Gregory Peck e a participação de Salvador Dali na criação dos desenhos que ajudavam a interpretar os sonhos do personagem de Peck, e Difamação, do ano seguinte, também com a actriz sueca e novamente com Cary Grant, num filme em que Hitchcock teve problemas não só com o beijo, arrojado para a época, dado entre os dois protagonistas, como por mostrar os nazis escondendo urânio em garrafas de vinho, algo que tinha alguma aderência à realidade da altura (a guerra estava ainda fresca) e que terá levado o realizador a estar sob vigilância do FBI. Sob o Ciclo de Capricórnio (1949), uma obra menor dentro de genialidade, fechou a fase Bergman, e o ciclo terminou com um argumento simplesmente genial co-escrito pelo sublime Raymond Chandler (provavelmente o nome maior das histórias de detectives e que ajudou a sedimentar o film noir), a partir de uma obra de Patricia Highsmith, O Desconhecido do Norte-Expresso (1951). Neste filme, dois homens encetam uma conversa de circunstância num comboio. Ambos se querem ver livres de alguém e quando um deles propõe que cada um assassine aquele de quem o outro se quer libertar, o segundo recusa. Mas o primeiro consuma o crime e parte em busca do primeiro para cobrar o cumprimento do acordo que nunca chegou de facto a sê-lo.

Tive a sorte de começar a ver os filmes de Hitchcock pela “primeira fase americana”, que até hoje se mantém como a minha favorita. Depois destes cinco filmes, fui vendo amiúde os seus filmes, ora quando passavam na televisão, ora comprando em VHS ou em DVD, ou ainda na Cinemateca.

Joan Fontaine e Lawrence Olivier em “Rebecca”

A entrada do homem no cinema americano havia acontecido um ano antes de A Suspeita com Rebecca (1940), a adaptação do maravilhoso romance de Daphne du Maurier, filme que ganhou o óscar de Melhor Filme desse ano, com Joan Fontaine como Mrs. De Winter e Sir Lawrence Olivier no papel do enigmático Max de Winter. Anos mais tarde li o livro, uma escrita envolvente e em crescendo até à revelação final, algo que o filme reflecte mas que deriva, sem contudo perder intensidade, numa espécie de género gótico-suspense que lhe empresta um gosto especial… “Sonhei, a noite passada, que voltara a Manderley. Pareceu-me ter ficado algum tempo diante do portão de ferro, fechado a cadeado. No meu sonho chamei o porteiro: não obtive resposta; espreitei com atenção por entre os varões ferrugentos, e vi que a casa dele estava deserta.

Correspondente de Guerra, desse mesmo ano, uma história de espionagem passada durante a II Guerra, e A Corda (1948), uma obra impressionante com James Stewart, passada toda ela dentro de uma sala, em que dois homens tentam provar ser possível cometer o crime perfeito ao esconder o cadáver de um colega que haviam acabado estrangular dentro de um baú, fecham o conjunto dos filmes que vi desta fase.

Antes, na “fase inglesa”, Hitchcock já havia mostrado o seu valor em obras cuja execução, enredo e atmosfera, não parecem ter saído da década de trinta (o cinema sonoro teve inicio em 1927): O Homem que Sabia Demais (1934), Os Trinta e Nove Degraus (1935), com Robert Donat, ou A Pousada da Jamaica (1939), mais uma adaptação de um romance de Daphne du Maurier, dispensam argumentação de defesa. Basta vê-los!

A década de 50 trouxe a “segunda fase americana” da filmografia de Hitchcock. O mundo estava a mudar, a inclusão da cor pedia a reinvenção do suspense, agora que os jogos de sombras se tornavam mais difíceis, e as actrizes haviam-se libertado do jugo dos grandes estúdios, dos quais até então eram “propriedade”. Mulheres como Kim Novak ou Tippi Hedren mostraram que o tempo em que o realizador dispunha fora da tela das estrelas que dirigia no grande ecrã, havia terminado.

A musa seguinte viria a abandonar o cinema para se tornar princesa do Mónaco: Grace Kelly terá sido a “última das frágeis”, marcando talvez o ponto de viragem. Basta ver as diferenças entre as personagens que representou em 1954: em Chamada para a Morte, o toque do telefone daria o sinal para o seu assassinato a mando do próprio marido, Ray Milland, e com Janela Indiscreta, auxilia James Stewart, um fotógrafo preso em casa com a perna engessada, que se entretém a espreitar as vidas dos vizinhos através das janelas do prédio em frente e suspeita de que um deles terá cometido um homicídio. Este é um filme obrigatório para qualquer cinéfilo.

“Janela Indiscreta” e a “princesa” Grace

Atropelado pela impiedosa passagem do tempo, foram começando a rarear as obras de referência. Contudo, algo bombástico ainda estava para vir: o final da década trouxe o canto do cisne de Hichcock. Vertigo (1958) destronou, pela primeira vez em cinco décadas, O Mundo a Seus Pés como o melhor filme de sempre, numa votação da revista Sight and Sound que acontece uma vez em cada década. A obsessão de um polícia reformado por uma bela mulher é o mote para um filme que, quanto menos soubermos melhor. É uma obra enorme, mas daí a ser o melhor de todos os tempos…

No ano seguinte, Intriga Internacional marcou a última incursão do mestre pelo género de espionagem/acção pura juntando Cary Grant, numa fase mais madura, e Eva Marie Saint, com uma obra toda ela assente numa sucessão de equívocos, e que contém uma das cenas mais famosas da filmografia de Hitchcock, quando um avião de pulverização tenta matar Grant.

Por fim, Psicho e o inesquecível Norman Bates. O fecho de uma década (ou o início de outra?); o regresso ao preto-e-branco e à subversividade da natureza humana. O mundo era muito diferente daquele onde vinte anos antes o realizador se movia e só uma obra com uma força descomunal pôde irromper entre os blockbusters que marcavam o tempo cinematográfico e o rasgão nos costumes que o dealbar da época do Flower Power anunciava. Neste filme, Hitchcock foi buscar o que tinha e o que não tinha para fechar com chave de ouro uma carreira ímpar no cinema.

Sobre Os Pássaros (1963), sobrevalorizado na minha opinião, não tenho muito a enaltecer: valerá a pena somente para fazer o pleno das obras mais conhecidas do realizador.

Pelo meio de tanta genialidade, houve ainda tempo para Hitchcock nos oferecer dezassete episódios da série Alfred Hitchcock Apresenta, entre 1955 e 1961 (só para quem considera uma longa-metragem demasiado longa!).

Alfred Hitchcock nunca recebeu um óscar de Melhor Realizador, apesar de ter sido nomeado cinco vezes. Quando veio o reconhecimento da Academia, em 1968 com a atribuição do Irving Thalberg Memorial Award, proferiu uma única palavra no discurso de agradecimento! O rebate ficou para sempre abafado pela orquestra! De que outra forma poderia o mestre manter o enigma que tão bem soube retratar nos seus filmes?

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António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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